[GSK] Somos o avesso de nós mesmos

23 May 2018

Aula ministrada por Gurusangat Kaur Khalsa no dia 20 de abril de 2018

 

[GSK abre a aula]

 

GSK: Na aula de hoje, vamos trabalhar a hipófise, e o tema dela é a intuição.

É claro que a intuição cabe em todo lugar, mas por que nessa sequência de aula? Podemos trabalhar a intuição para fazer qualquer coisa que quisermos. A intuição é sempre uma forma de inteligência, e não uma forma de adivinhação. Raríssimos seres humanos são capazes de usá-la com o propósito mais nobre. Ela deveria ser usada em momentos em que realmente ela poderia fazer a diferença, em que o contexto do qual estamos falando seria do desalinhamento, do desajuste, quando passamos por turbulências, para ver se naturalmente nos ajustamos. Ao invés disso, recrudescemos, nos protegemos, criamos um núcleo. Essa enucleação é uma forma de proteção: falamos com quem conhecemos e com quem nos entende. Nós, genericamente falando, criamos um clube de entendimento, escrevendo para quem nos lê e só escrevemos aquilo que quem nos lê já sabe o que nós falaríamos. Quando fazemos isso, fazemos uma enucleação e nos isolamos da contradição, da dificuldade, do horrível. Quando deveríamos agir como um galvanizador de transformação, recrudescemos e polarizamos - a pior posição em que poderíamos estar, pois nessa posição não há o papel da intuição, só do intelecto. 

 

É o intelecto que ergue uma linha de argumentação, que cria elementos de separação, que justifica a separação. É um lugar em que, por mais que haja abalos sísmicos, não os usamos para alinharmo-nos. E acreditamos nesse mundo pseudo-correto que criamos, que ali dentro estamos certos, que todo mundo que está conosco está certo, que todo mundo que está fora desse núcleo está errado. Esta é a posição mais pobre, e ela não é sustentável por muito tempo. Se usamos a intuição, nem entramos nisso. Mas, se nessa situação conseguimos romper com a inteligência, e não com o intelecto, temos uma chance de doer menos. Pensem em vocês com seus casamentos e relacionamentos: é mesma coisa. Quando houver o tal abalo que vai finalmente alinhar, que vai acontecer por bem ou por mal – o mal é sempre muito ruim, muito difícil, muito degradante, muito indigno, deixa rastros e deixa legado. Esse é o uso da intuição. Na nossa perspectiva, a intuição deveria ser usada para rompermos aquela tendência de autoproteção para estarmos naquilo que é o nosso avesso “em relação”.

 

Até eu ir para a Alemanha, que é um divisor de águas em minha vida, por anos me senti a pura, a justa, a correta, a trabalhadora, a inteligente; e o resto era o resto. Eu tinha muito conflito e achava que era sempre a injustiçada, a vítima. Não adianta, esse modelito eu conheço em mim. Por mais que me achasse a pura, a coerente, a correta, a de esquerda, a isso, a aquilo, a merda, a tudo; por mais que achasse que o intelecto justificasse que essa era minha posição e que os outros tinham outra posição, precisei ir para um lugar muito divino, que foi o lugar do "crash" total. Muito divino, de entregar a cabeça. Não tenho problema de entregar a cabeça, nunca tive. Vocês têm. Muitos têm. Quem pode transitar indo para a Alemanha? É doloroso, mas eu poderia ter ido para Chapetuba, Itumbiara, lá no Triângulo Mineiro, mas fui para a Alemanha. Vocês podem entender? A entrega é sempre doce. E quando voltei, me inseri numa frequência completamente diferente. Nunca deixei de ser eu, ninguém nunca deixou de ser quem eles eram, mas houve uma relação. Se naquilo não houve uma transformação, houve um legado. A intuição deveria ser usada para não deixarmos que os núcleos que criamos tenham uma verdade maior que da realidade. Sei que estou falando coisas, para muitos, bem difíceis, pois conviver com o avesso não é fácil, mas é absolutamente necessário porque nós somos o avesso de nós mesmos.

 

Nossa aula chama-se "Torne-se intuitivo". Vocês precisam lembrar que intuição não é aquela coisa: “ai, nossa, eu senti uma luz, senti que alguma coisa estava por trás ...” Isso é Pasquim, isso é para quem é tolo - degradar, diluir a intuição nesse nível. Ela deve ser usada para poder saber que existe uma situação de conflito difícil e nos apresentarmos nela com o espírito, e não com o intelecto.

                        

Kriya: Torne-se intuitivo, do manual Reaching Me in Me

 

GSK: Vamos fazer uma meditação hoje que vocês nunca fizeram. O elemento que vamos trabalhar nessa meditação é a raiva, pois ela é considerada uma das emoções que mais temos, juntamente com o medo e o ciúme. São as três emoções primais para o Kundalini Yoga. Elas dão origem a outras emoções. O medo nos impede de render a cabeça. Quando tem aquele ajuste, estamos no tumulto e queremos nos entregar, é o medo que nos impede de render a cabeça. A raiva nos impede de ver intuitivamente, nos tira do nosso ambiente e nos coloca na defesa do ego. Nós não queremos acabar com a raiva – não tem essa história de acabar com a raiva. Queremos pegar a força que vem com a raiva e levar para a intuição. A maioria fica com isso para baixo, mas devemos colocar isso para cima.

 

O medo de que justiça não seja feita a nós está no inconsciente coletivo. Esse é o medo, é por causa dele que não conseguimos fazer pelo outro, porque temos medo de não sermos protegidos. A raiva é aquilo que a priori sentimos quando o sagrado foi quebrado. Nós encarnamos com essas três emoções. Encarnamos com medo porque não temos nenhuma garantia para a alma. Encarnamos com a raiva porque fomos separados da unidade. E encarnamos com ciúmes porque alguns ficaram e eu vim. São três emoções que estão conosco desde que encarnamos. Entenderam? É uma miséria, a gente pode ficar com isso, justificando tudo, ou a gente pode escolher fluir.

 

Meditação: Vença a raiva interior e queime-a

 

A frase do Yogi Bhajan de hoje diz: “você tem que viver como deuses, ou deusas, você tem que ser universal”. Isso é muito difícil quando estamos em conflito. Não queremos ser universais, queremos ser regionais. Mas a história é que, se quisermos ser esse guru de nós mesmos, Antar Guru, esse professor interno ativo, ele não se alinha com as regionalidades, ele se alinha só na universalidade. Então o Yogi Bhajan diz: “você tem que ir lá e servir, servir as pessoas, você tem de espalhar a esperança, você não pode deixar isso morrer.” Viver universalmente. Aconselho tantos de vocês, tantos, todos os dias, de manhã, de tarde e de noite. Vocês estão sempre se beijando quando tudo está bem. Quando tudo fica ruim, vocês estão se matando. Qual é a de vocês? Quando é que vocês vão colocar em prática a universalidade e deixar de ser regionais? Que graça tem, quando está ruim, vocês ficarem mal? A história é que vocês precisam limpar essa raiva interna, vocês precisam usar a intuição, mas tudo isso tem de ser com um propósito e o propósito tem de ser universal, e não regional. O espírito é universal, e o ego é regional, não adianta. Não tem jeito. Uma vez eu ouvi o Frei Cláudio falando: nos tempos que estão aí, é melhor uma boa prostituta conversar com um bom padre do que dois padres ruins conversarem. Se você separa o mundo assim – eu só vou conversar com padre –, você pode correr o risco de ser um padre bom conversando com a miséria. Mas se você não separa pela regionalidade, você corre o risco de ser um padre bom conversando com uma prostituta boa, ou ser um padre ruim conversando com uma prostituta boa - o que é ótimo, porque às vezes a prostituta te salva! Portanto, não dá para separar as coisas pela regionalidade, temos de ser universais, temos que nos entregar. O tema da aula de hoje, a intuição, é isto: você intuir quando a coisa está azedando e agir sem regionalismo. Mas não pode ser intelectual. Por isso que uma meditação como essa, que desafia vocês, é boa porque vi gente se entregar muito facilmente. Como vocês vão chegar no universo com essa forcinha? O universo é uma tensão muito grande, um padre conversar com uma prostituta não é uma coisa simples. Não é simples, você tem que ter resiliência, tem que ter presença, tem que ter força, tem que queimar sua raiva interna, tem que queimar seu preconceito. Preconceito é um negócio regional demais, seja ele qual for! Nós estamos aqui nessa sexta-feira para isso, para a gente se azeitar, se inspirar, fazer a roda desse mundo girar um pouquinho diferente. 

 

Temos que superar esse regionalismo, temos que fazer da nossa vida algo muito útil e da nossa arte algo muito sublime. A arte não tem de ser utilitária, mas nossa vida precisa ter um sentido. A aula de hoje é para vocês terem intuição de fazer da sua vida algo que faça sentido, porque na intuição você vai saber que tem de ajudar alguém, que tem de apartar uma briga. Vai ser na intuição que você descobre que vai ter de se apresentar antes do conflito. Vai ser na intuição que você descobre que alguém está realmente muito estranho com você, você não sabe o que você fez, acha que não fez nada, mas na intuição você vai lá e chama a pessoa para conversar. É na intuição que fazemos isso. A vida ganha propósito, das coisas menores à maiores, para ajudar alguém ou para se ajudar. O que nos previne de estarmos nesse eixo intuitivo é a raiva, é o clube. O clube da esquina já era. Esses são os tempos aquarianos. A verdade sendo colocada em teste. Ninguém tem a verdade! Ninguém! Ninguém tem a verdade, nós somos todos fragmentos. Então, vamos seguir viagem! Para a turma do Sat Nam Rasayan, essa aula está no manual com o código NM 1324.

 

May the long time sun shine upon you...

 

Achei muito interessante a entrevista que o José Dirceu deu para a Folha de São Paulo. Achei que ele é um exemplo de uma pessoa que não luta contra a realidade, ele se entrega. Nessa entrevista que ele deu a uma repórter da Folha, ele fala sobre o que é viver dentro do cárcere e achei muito bom ele dizer que não tem jeito de resistir à prisão. Eu estava admirando a reportagem e a sinceridade dele e o fato de ele realmente não negar nada. Aqui não tem nenhuma avaliação política. Ele não nega nada, nem acha que nada do que foi feito foi uma quebra da lei. Interessante. Eu gosto de gente assim, muito dentro da realidade. Por isso, por mais que a gente olhe para o José Dirceu e queira ver nele uma pessoa que tenha quebrado o sagrado, só vemos uma pessoa digna – resignada e digna. Gosto demais disso. Não é o que eu consigo ver em outros. O José Dirceu é um exemplo. Ele foi treinado para ser assim. É um bom exemplo de quando uma pessoa leva um treinamento para si, como ela vira essa projeção da dignidade e da coerência, dentro daquilo que ele é, e a entrega está ali. O não negar é muito bonito de ver. Recomendo ler a entrevista dele na Folha de hoje sobre a cadeia. Inclusive como é a relação dele com o próprio Eduardo Cunha. Muito bonito de ver que o José Dirceu tem muito respeito pelo Cunha. Eu acho que um cara desse é um exemplo para minha aula, é uma pessoa que está na cadeia e, como ele mesmo disse, vai passar o resto da vida na cadeia. Isso é uma hipótese, ele diz. Provavelmente muito real, muito concreta, e ao mesmo tempo ele não nega nada ali, nem nega seus grandes opositores. Acho que vocês deveriam ler. Porque eu queria ver se um de vocês, que são muito empedernidos no seu grupo, na sua regionalidade, vai passar o resto da vida com o Eduardo Cunha na cadeia – como é que seria. Se vocês rompem com gente que não está nem na cadeia só porque ela não partilha da sua mesma visão, como é que você vai ficar no cárcere com que te colocou ali. Eu acho um grande exemplo o José Dirceu, isso sim.

 

Voltando ao assunto da aula, sobre as emoções primais: transformamos a raiva em vigor, ou em um tipo de inteligência, intuição. Transformamos o medo em cautela. Não é deixar de ter amígdala cerebral e não ter medo e se machucar, se dar mal. É ter cautela - "eu vou entrar, mas eu estou mapeando, vendo". E o ciúme nos deixa fora do nosso eixo e quanto mais fora do nosso eixo a gente estiver, mais o outro tem desprezo por nós. Portanto, quando ganhamos força sobre o ciúme, ele nos dá autoestima. E como disse a Rupi Kaur, o melhor símbolo da autoestima é esticar bem rígido o dedo do meio. O ciúme deixa você inseguro, frágil e ninguém gosta de ninguém frágil. Ninguém é capaz de se apaixonar ou de se conectar com uma pessoa que está frágil, dependente, carente, etc. Precisamos estar no nosso corpo radiante, precisamos pegar o ciúme e colocá-lo no corpo radiante, que é a autoestima. E com uma grande qualidade: se alguém tiver que te deixar, você não vai deixar de ser você para ter alguém. Essa coisa da autoestima é muito importante porque temos medo de perder a pessoa. Tem tantas outras pessoas! Realmente, não pode ter romantismo.

 

A história é que esse furor pela vida tem de ser tão mais nobre, tão mais intenso para você, que você merece você. Você não merece ser regulado, autenticado, validado pelo outro. Essa é a história. Não estou falando de ir para a sua regional. É para ir para o universal. Não espere que o outro te valide. A história do ciúme é como você ganha projeção e tem paciência de ver como o outro vai reagir com você projetado. E a dica é (ainda vale essa máxima para a psique numa relação): ninguém gosta de perder e toda vez que você assume e ganha a sua energia e projeção, você se desliga da validação do outro. O outro teme te perder. Quanto mais você quiser o outro, menos ele te quer. Queira você, que o outro vai te querer.

 

[Transcrição: Sada Ram Kaur]

 

 

 

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