[GSK] Energize o seu sistema

Aula ministrada por Gurusangat Kaur Khalsa em 15 de fevereiro de 2019


[GSK abre a aula]


Hoje faremos uma aula para energizar o sistema. A melhor maneira que encontrei para dizer a vocês aonde iremos é começar com um poema.


“Melancolia de tempestade


Olha, uma barca se enfia sob as estrelas

rumo ao rosto escuro da noite”


O que esse poema revela para vocês, além da beleza?


Aluna: Medo do desconhecido.


GSK: Tem desconhecido. Mas tem medo?


Não tem medo. Além do desconhecido, o que esse poema revela para vocês?

Só porque ele se chama “Melancolia de Tempestade”, não significa que tenha tempestade. Pode ser justamente após a tempestade, porque tem estrelas. O que sentem quando escutam esse poema? Todos estão tentando olhar para a cabeça. Olhem para o coração. Quando escutam um poema desses, o que é que ele te revela?


Alunos: Esperança...


GSK: Ele revela esperança?


Aluna: Para mim ele revela pesar pela tempestade que passou, que me deixou nessa tristeza, nessa melancolia. Olha..., existe um barco, existe alguém, existe uma possibilidade de chegar.


GSK: Esse poeta nasceu no final do século XIX. No início do século XX ele se suicidou. Ele escrevia sobre situações em que, independentemente de como eram, deveria haver uma travessia. Essa travessia nunca era rumo ao rosto claro do dia. Era sempre rumo ao rosto escuro da noite.


O que tem nesse poema? Tem beleza. Pode ter travessia. Mas tem peso. Esse é o nosso tema do semestre. Porque a realidade, se ficarmos no finito, é extremamente melancólica. Ela induz a uma tristeza absoluta, embora tenhamos que atravessá-la. Estamos tratando nesse semestre de como olhar para uma realidade e viver essa realidade sem negar que ela é dura. Que ela traz uma melancolia, uma dor. Sem negar isso, e, ao mesmo tempo, encontrar um aspecto dela que abre para uma dimensão infinita.


Os especialistas do início do século XX ficavam apenas no finito, onde a existência deles tocava. Para a restauração do sagrado, precisamos ter uma vista infinita da realidade. O Kundalini yogi não vem como uma oposição ao existencialismo ou ao romantismo. Não somos a oposição, não somos os ultrarrealistas e os invencíveis. O Kundalini yogi não é o oposto disso. Ele é isso, mais o oposto. Ele é a realidade melancólica, difícil, uma barca sob as estrelas que parte para o rosto escuro da noite, mas é também aquele que vê no rosto escuro da noite um dia.


Como fazemos isso? Isso é a coisa mais importante! É pegar o kriya, tudo que sabemos, e aplicar na realidade. Senão, não vai adiantar. No Kundalini Yoga inteligência aplicada é um elemento tão essencial quanto o kriya. Se acham que o kriya é uma pílula, dançaram. Se acham que a sadhana é uma pílula, dançaram. Todo o tempo estamos sendo convocados a olhar para a seguinte situação: “Ó destino, tu que és a concha, a pérola e a morte”.


Quando pegam o seu destino e caminham para o destino e não para a sina, o que o destino te oferece? A concha, a pérola, e quem mais? A morte. Se a cada desafio não aprendermos a morrer, não aprenderemos a aplicar a inteligência. É aí que está a chave do Kundalini Yoga. Para se pegar o barco, enfiar o barco sob as estrelas e rumar ao rosto escuro da noite, ou se é louco, ou está embriagado. Ou se é doido ou se dessensibiliza para poder fazer essa viagem. É o que muitos fazem.


Como podemos fazer essa travessia lúcidos e translúcidos? Somente aceitando que haverá morte em vida – Jiwan Mukta. Esse é o tema da aula que fecha o curso de formação nível I.


Como traduzir essa morte que encontraremos no momento em que buscarmos descer em águas profundas e ir atrás da nossa própria concha com a sua pérola? Pois a concha e a pérola, como diz o Kabir, não estão em águas rasas. Temos que descer em águas profundas e admitir que parte dessa situação é a morte. Parte dessa situação é uma transformação. Parte dessa situação é deixar uma coisa e ir ganhar outra. Isso é o Kundalini Yoga: nos preparar para essa morte.


Essa morte é admitirmos que, mesmo tendo razão, às vezes morremos diante da razão. Mesmo tendo razão, às vezes morremos diante da melancolia. E nem por isso desaparecemos. Ressurgimos ampliados. Ressurgimos com a visão que a morte provê visão além do finito. Essa é a morte literal, mas em várias situações é também a morte do ego. É a morte quando perdemos. Quando nos entregamos para perdermos a razão.


Essa aula é um preparo para isso. Professores de Kundalini Yoga precisam adquirir uma envergadura intelectual e aplicar isso. Tudo o que vemos nos níveis II, toda a filosofia, toda a base teórica, devemos aplicar com sangue e alma no kriya. Para o kriya fazer sentido e deixar de ser apenas uma coletânea de poses. Devemos dar para nossos alunos uma informação que seja detalhada em razão da vida. Não somos loucos nem narcotizados para atravessar o desconhecido, e não somos hiper-realistas e frios para negar a travessia. Somos um pouco dessas duas coisas. Atravessando com os mapas.


Na primeira aula do ano falamos dos dois grandes corpos de anestesiamento que temos: um é a droga propriamente dita, o outro é a vítima. A vitimização é uma forma de narcotizar, porque a vítima tem uma razão muito bonita para não atravessar, e o narcotizado tem uma razão muito louca para atravessar. Essas são as condições que nos motivam a querer atravessar de olhos abertos, conscientes.


Kriya: Energizar o sistema, do Manual para o Proprietário do Corpo Humano


O Yogi Bhajan encerra essa aula dizendo o seguinte: “A consciência nos diz...”. Ele está partindo do pressuposto da consciência. Ele não está nem no torpor, nem na dor. Ele está na consciência, que nos diz que se viemos a esse mundo fizemos uma viagem, e deste mundo teremos que partir. Que nesse mundo há maya. E tudo isso que já sabemos. Mas quando chega no momento da prática neste mundo o subconsciente diz: “Esqueça isso tudo”.


Quando o subconsciente nos diz “esqueça isso tudo”, ele recorre, nós recorremos – porque nós somos o subconsciente – à uma condição muito escapista. Acreditamos que essa condição escapista nos vai favorecer a sobrevivência. Quando criamos o subconsciente, tudo o que estamos atrás é de uma sobrevida. E quem se contenta com uma sobrevida, busca pérolas em águas rasas.


O subconsciente está preocupado com a sobrevida. Está preocupado com a defesa imediata. Quando vamos para a consciência, não estamos preocupados com a sobrevida. Estamos preocupados em viver, e então saímos para buscar pérolas onde elas estão, em águas profundas. Faz muito sentido aquela pergunta do Yogi Bhajan: se nós gastamos a mesma quantidade de energia e de tempo para buscar pérolas em águas rasas, em comparação a buscá-las em águas profundas, por que escolhemos buscar em águas rasas?


Se gastamos a mesma quantidade de energia e de tempo para sobreviver no subconsciente que para viver na consciência, por que escolhemos a sobrevida? Porque o ego exige satisfação imediata. Ele exige reconhecimento imediato, satisfação imediata, experiência imediata, tudo imediato. É a visão do finito. O que está imediatamente à minha frente. E a consciência é um treino porque, realmente, a sua satisfação não é a da realização imediata dos desejos. A satisfação da consciência é a realização do propósito, o que muitas vezes pode levar vidas. E é aí que a inteligência aplicada entra.


A maioria esmagadora de nós vai abrir a porta, sair no portão e encontrar uma situação daqui a trinta minutos para testar isso. E vamos falhar. É muito curioso! Por que falhamos sabendo?


Há um treinamento cultural. Há o peso da cultura, e o peso da cultura no Kundalini Yoga é compreendido como a tal mente universal. Isso é fortíssimo para o subconsciente. Na nossa educação fomos aculturados a acreditar que vamos encontrar alguém e que esse alguém vai preencher os nossos buracos. É muito difícil por em prática que devemos preencher os nossos buracos para encontrar alguém. É aí que caímos. Erramos aí. Porque na hora do embate queremos uma resposta imediata de preenchimento dos nossos buracos, das nossas cavidades, das nossas melancolias.


Essa não é uma viagem simples. Ela gasta tanta energia quanto a outra, só que a outra é uma dor constante e uma dependência constante do outro. Se quiserem viver uma vida de depender do outro, da compreensão do outro para que se sintam bem, da compaixão do outro – uma vida de dependência –, sua busca será pela rota do subconsciente. A rota da consciência é querer o outro para servir ao outro, e não querer o outro para que ele o sirva. É completamente diferente. Por isso fazemos Kundalini Yoga. Não tem pílula mágica. É um trabalho de inteligência aplicada.


Quando vamos fazer qualquer tipo de trabalho, ou serviço, não tem ninguém que vai nos servir. Nós também estamos nos expondo, estirando ao máximo as nossas fibras emocionais. Mas para isso somos Kundalini yogis. Precisamos eventualmente nos recarregar, ter uma compreensão disso tudo e ter uma visão do infinito, porque é dilacerante. O fato de dizer que precisamos contemplar a realidade a partir dessas perspectivas, de forma nenhuma nos exime de assumir responsabilidade. Pelo contrário. Não é uma isenção de estarmos ativamente em estado de alerta e de protesto. Temos que estar vigilantes.


No nosso Gurdwara do dia 31 de dezembro dizíamos assim: “Não vamos soltar as mãos”. Nós não tínhamos ideia do que viria, e tão rapidamente. Existe um tipo de consciência que está se dissolvendo no mundo, e é muito duro ver isso se dissolver, porque muita gente sofre. Ontem, dirigindo, escutei um relato. A Vale fez um estudo de quanto custaria a ela planejar tudo. Diante de um risco iminente, para ela remover aquelas pessoas, investir na barragem para que ela não se rompesse, para que o ambiente e vidas fossem preservados, lhe custaria x. E quanto custaria a ela não fazer nada disso? Contar com a possibilidade de que esse “acidente” não ocorresse, mas, ocorrendo, quanto isso iria lhe custar? A Vale concluiu que custaria mais ou menos a mesma coisa e que, portanto, não valia a pena prevenir nada.


Esse tipo de consciência está sendo dissolvido. Pensamos assim: não é possível que a vida não vale nada! Não vale nada mesmo. Mas... é, gente... nós fazemos isso. Numa escala diferente. Nessa escala maior, numa tragédia como essa, isso fica muito assustador. Essa consciência está se dissolvendo. Esse é o fim dessa Kaliyuga. É isso que está sendo exposto. É duríssimo ver que muitos de nós serão tirados para que tenhamos enfim a consciência de que realmente não é o dinheiro que tem que balizar nossa existência. Ele tem que ser um meio.


São séculos que estão sendo dissolvidos nessa lógica. E somos testemunhas disso, é muito difícil. Estamos sendo dilacerados e é muito importante que filtremos muito onde vamos por a nossa energia. Nós precisamos ter energia para sermos testemunhas de uma nova consciência. É por isso que fazemos Kundalini Yoga. É um recurso muito importante. O mundo precisa de nós fortes e estáveis.


Vou contar uma história. Estava em Berlim na época de Sarajevo. Aquela loucura de Sarajevo. Aquela tristeza. Em Berlim você trabalha a semana inteira e no sábado você vai à feira. As feiras são em praças públicas. Sábado é o dia de fazer compras, tomar um café e conversar com os amigos. Domingo é o dia de faxinar e passar roupa. E de segunda a sexta a vida continua. Era um sábado, eu tinha terminado as minhas compras e estava com uma alemã, que me chamou para tomar um café com uma amiga da Bahia. Todo mundo estava na calçada, ela de costas para determinado ponto do passeio e eu olhando, até que vi aquele tanto de mulheres ciganas de Sarajevo. Eram refugiadas de guerra, estavam ali em Berlim. Eu as olhei, elas me olharam e pararam na nossa mesa. Duas delas viraram-se para a alemã e falaram: “Dinheiro”. A alemã olhou para elas com desdém e falou: “Não”. Simplesmente falou um não. Eu não vi o olhar dela para as Sarajevos. As mulheres cuspiram nela, viraram as costas e foram embora.


Essa mulher fez um drama! Ela dizia: “Vai atrás delas! Dá nelas!”. Eu falei que tudo que podia fazer era pô-la no carro, levá-la para minha casa e dar-lhe um banho. Ela disse: “Você não tem coragem civil”, e acabou comigo, porque não fui capaz de protegê-la. Pus aquela mulher dentro do meu carro. Em casa, pus água quente, sal e não sei mais o quê na banheira. Pus ela ali dentro e fechei a porta do banheiro. Deixei-a tomando banho, e ela superexaltada, dizendo que eu era a coisa mais horrível da vida dela, porque não a defendi. Deixei isso rolar.


Passados alguns dias, ela me convidou para ir à cerimônia do Sai Baba. Resolvi não falar “não” para a mulher de novo, achando que ela ficaria muito frustrada. Fui ver o Sai Baba. Era bem em frente ao Ashram de Berlim. Cheguei lá e achei tudo muito tranquilo, muito lindo. Uma cerimônia hindu, todo mundo sentado, meditando, e ela vestida de laranja, uma verdadeira sannyasi. O Sai Baba não estava lá. Veio um cara, sentou e contou a seguinte história de um dos Budas: Buda estava meditando. Veio uma pessoa que tinha muita inveja da sua luz e cuspiu nele. Quieto, sem abrir os olhos, ele continuou meditando, e essa pessoa ficou indignada e cuspiu nele de novo. Quando cuspiu três vezes no Buda, este se levantou e limpou com água o lugar onde tinha sido cuspido. Ao voltar para meditar essa pessoa cuspiu nele de novo, e ele limpou. Por fim, Buda disse: “O que posso fazer por você? Porque tenho uma imensa gratidão.” O cara perguntou: “O que é isso?”. Buda: “Se você não tivesse feito isso, me cuspido tantas vezes, eu jamais teria me limpado tantas vezes. E como eu estava precisando dessa limpeza! Muito obrigado!”.


A alemã continuou sannyasi, do jeito que estava. Acho que ela me levou lá porque tinha certeza que eu iria ganhar meu pedaço de ensinamento. Quando tudo terminou perguntei-lhe se tinha ouvido a história do cuspe. Ela disse: “Que dia posso ir no centro de yoga fazer uma aula?”. Estava esperando a revanche. Alemã! Quer gente que tem mais certeza? Ela chegou na aula – era essa aula – tudo ia muito bem e ela ia tirando de letra. Na hora que chegou certa pose a professora errou. O tempo da pose era dois minutos e meio e ela pôs vinte e dois minutos e meio.


A alemã estava nas minhas costas. Eu não a estava vendo. Sabia que ela estava esperando o meu fracasso, mas o que houve é que ela me deu um fôlego, me deu um gás. Quando terminou a aula e eu olhei para trás, a alemã já tinha dado o pau. Perguntei para a professora onde estava aquela visita e ela falou que com três minutos da pose, a alemã levantou, me deixou um bilhete: “Isto é um absurdo!”, e foi embora. Eu tinha muito a agradecer à alemã. Se não fosse ela, eu jamais teria me superado.


“May the long time sun shine upon you....”


[Transcrição: Karamjeet Kaur]

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