[GSK] Caminhando por dentro e por fora da vontade de Deus

Aula ministrada por Gurusangat Kaur Khalsa em 15 de março de 2019


[GSK abre a aula]


O tema da aula de hoje é: “Trabalho completo para o ser total”. Esse ser total tem duas formatações, que conhecemos quando trabalhamos o espaço sagrado: o corpo 1 e o corpo 2. O corpo 1 é aquele com o qual lidamos com a realidade a partir da nossa necessidade de defesa imediata. Através do corpo 1 acessamos os recursos que temos para lidar com a realidade como ela se apresenta para nós. O mediador desses recursos é o nosso sistema nervoso. O que fornece as respostas à realidade é o nosso sistema hormonal. E o computador que utilizamos para processar essa realidade é o subconsciente. Com esse corpo 1 apreendemos muitas coisas importantes da realidade, se usamos a mente negativa. A mente negativa tem o papel de oferecer para esse corpo uma leitura bastante rápida dos riscos.


O corpo 2 é aquele com que vamos um pouco mais além da realidade aparente, penetrando essa finitude e querendo chegar ao infinito. Esse corpo almeja uma experiência explícita do infinito. Ele deseja ir além das aparências. Para isso, o corpo 2 também faz uso dos sistemas nervoso e hormonal, mas não utiliza o processador do subconsciente para interpretar a realidade. Não o faz porque o subconsciente é limitado ao levantamento de riscos. O corpo 2 recruta a mente positiva para ir além, e, para tal, aciona também o discernimento da mente neutra.


Essa aula trata de todos os corpos sutis, de todas as casas de Prana e de todos os chakras, uma vez que no Kundalini Yoga não se retira um sistema do outro. Seria muito pouco provável que um ser humano funcionasse sem o rim. Completamente impossível ele funcionar sem um coração. Se no corpo humano tudo é sistêmico e se a psique está inteiramente ligada às finitudes, finito e infinito estão completamente entrelaçados neste corpo. Por que no Kundalini Yoga seria diferente? Nessa abordagem não faz sentido ajustar os chakras. Trabalha-se no corpo físico para fazer um ajuste completo. Mas vamos trabalhar um outro aspecto dessa prática hoje também.


“O Príncipe deve tomar como exemplo a raposa e o leão. Pois o leão não é capaz de se defender das armadilhas, assim como a raposa não sabe se defender dos lobos. Deve, portanto, ser a raposa e o leão.” Reconhecem isso? Quem o escreveu foi Maquiavel, no livro O Príncipe. Essa fala marca a psique não só do ocidente, mas da raça humana como um todo. Não podemos escolher uma única posição. Precisamos ser, ao mesmo tempo, a raposa e o leão, porque em cada um deles nos falta algo. Essa é uma janela para a maior corrupção humana, é algo cultural. Foi infundido dentro de nós que não somos capazes de estar completos em nós mesmos e que, portanto, precisamos fazer acordos, nos associar àqueles que nos completam. Essa é a experiência da vida humana a partir da escassez. E a esperteza da escassez é ter para si aquilo que acreditamos não ter em nós.


Contudo, é muito antes o contrário. No final do Pauree I do Japji o Guru Nanak pergunta:

“Como viver a verdade? Como quebrar as redes de mentiras?”

A resposta que ele oferece é: “Caminhando por dentro e por fora da vontade de Deus. Oh, Nanak, está escrito em cada alma.”


É uma contraposição direta e explícita a Maquiavel. Não precisamos ser maquiavélicos para vivermos bem. Precisamos querer romper as redes de mentira. Somente cada um de nós pode saber como romper essas redes, nenhum de nós é capaz de dizer ao outro como ele deve rompê-las. Está escrito na alma e na consciência de cada um.


O mapa que temos para nos orientar é caminhar por dentro e por fora da vontade de Deus. Essa frase do Guru Nanak é a chave. Caminhar por dentro da vontade de Deus é muito fácil quando a nossa vontade e a vontade de Deus estão aparentemente alinhadas, quando tudo está dando certo. Caminhamos fora da vontade de Deus quando tudo está dando errado e, aparentemente, a nossa vontade e a vontade de Deus são opostas. Mas, como será que podemos não recusar a realidade quando ela se opõe a nós? Não temos que deixar de ser nós mesmos para andar na realidade que se opõe a nós. Não temos que ser maquiavélicos.


A vida e a consciência são entidades separadas, porque a vida é o veículo através do qual a consciência se manifesta. Elas são tão separadas que, quando a vida termina, a consciência não termina. Isso é a prova de que a vida e a consciência não se encerram uma na outra. A vida acaba, mas o fruto daquela inteligência que nos habitou, o fruto daquelas experiências que nos habitaram, permanece. Isso foi comprovado pela ciência há quase quinze anos, o que rendeu um Prêmio Nobel para um biólogo chamado Rupert Sheldrake, que descreveu a teoria dos campos morfogenéticos. Na época, uma reportagem do Fantástico mostrou um gorila na Micronésia aprendendo a descascar uma banana antes de comê-la. Esse aprendizado demorou algum tempo, até que o gorila, enfim, descascou a banana e a comeu. Depois desse evento gorilas do mundo todo começaram a descascar bananas para comê-las. A próxima geração já comia a banana descascada, sem necessidade disso ser ensinado. Existe um campo em que essa inteligência se projeta e propaga.


O Yogi Bhajan fez um desenho para representar como carregamos a vida e a consciência. Nesse desenho ele mostra como lidar com duas entidades que são separadas mas que, num determinado momento no tempo e numa determinada localização do planeta, são por nós carregadas. Podemos escolher o modelo do Príncipe ou o modelo do Guru Nanak.


Isso tudo que falamos até aqui foi o preâmbulo. Vamos tratar agora de estados psíquicos abordados pela Humanologia, no Kundalini Yoga. Começaremos com o triângulo inferior e, por enquanto, discutiremos apenas a raiva. O triângulo inferior oferece uma grande lição para nós. Através dele desenvolvemos o desapego, aprendemos a reidentificar e amadurecemos. Esses três elementos não são compreendidos ou experimentados pelo triângulo superior. Todo teste de amadurecimento é uma crise relativa ao triângulo inferior. Esse triângulo vai lidar com três tipos de crise: a raiva, a avareza e o apego. Esses não são uma campanha contra nós, mas instrumentos para nos amadurecer. Se olharmos para a realidade e nos sentirmos presos a esses três elementos, estaremos nos percebendo como vítimas e, dessa forma, atuando como o leão ou como a raposa. Não queremos isso.


A raiva é a experiência de insegurança quando o ego está ameaçado. Contudo, se isso acontece, não precisamos necessariamente reagir como vítima ou algoz. Essa seria a saída fácil. O amadurecimento está em encarar aquilo que nos ameaça. Não destruir nem fugir, mas interagir. Essa é a proposta do Guru Nanak. Quando sentimos a insegurança do nosso ego ameaçado, direcionamos toda nossa energia sexual, ou Prana vital, para a defesa. Nesse momento estamos usando o corpo 1, o processador do subconsciente, cujo grande sinal de alerta é para dor e trauma. Nossa defesa serve para destruir o que nos ameaça ou para ignorar aquilo. Agindo nessa direção saímos da rota em que a nossa vontade e a vontade de Deus estão alinhadas. E, para sair dessa rota e ainda fingir que está tudo bem, temos que mentir de novo, nos acorrentando a uma rede crescente de mentiras.


A raiva surge de uma necessidade de identificação. Quando estamos sob risco, nos desidentificamos do elemento que nos aflige ou provoca a insegurança, porque se nos identificarmos com ele, teremos que nos entregar. Essa entrega pode ser, inclusive, aceitar conflitos e diferenças. Mas como há uma grande necessidade de sentir conforto e segurança, negamos a realidade dura e buscamos de novo realidades que criam conosco uma identidade de paz. Por isso a vida de quem não aceita os momentos em que sua vontade e a vontade de Deus não são as mesmas é uma vida em fuga. Essa pessoa é sempre estagiária. Ela faz um estágio numa situação até a situação ficar ácida e, quando isso acontece, muda de situação até essa outra ficar novamente ácida. Está sempre buscando uma identificação para se sentir segura.


O problema da identificação, como dizia o Yogi Bhajan, é que geramos falsas identificações. No momento em que imaginamos que precisamos de uma nova identificação, o nosso subconsciente empreende uma seleção daqueles que podem garantir para nós, no imediato, aquilo que precisamos. Esse é o perigo da falsa identificação, porque o que realmente precisamos é interagir com aquilo que nos confronta.


A situação da raiva pode se manifestar de duas maneiras. Não necessariamente uma delas é ruim, pode até ser que uma delas seja a cura. Quando se manifesta violentamente a raiva é péssima, retira o direito do outro finito existir. Mas quando não se manifesta violentamente, ela nos adiciona força moral e persistência. A raiva, em si, não é um problema, é apenas a manifestação de uma situação da psique que mostra que o ego está sendo ameaçado. Temos a chance de investigar se o ego está sendo ameaçado por uma intriga mental nossa ou se, de fato, alguém quer tirar nosso poder. A raiva não pode ser eliminada do panorama, porque se alguém ilicitamente quer tirar o poder da nossa existência, precisamos responder. Quando ela não se manifesta violentamente, ela nos dá a força moral de admitir que existimos em nós mesmos e precisamos nos defender, garantindo a persistência para essa defesa. A beleza do Kundalini Yoga está no entendimento de que não há um caminho linear, que o caminho é sempre paradoxal.


Muitos acreditam que o outro lado da moeda da raiva é o amor. Mas, para o Yogi Bhajan, desde o Guru Nanak, o outro lado da moeda da raiva é o medo. Muitas pessoas lidam com a raiva no amor e não sabem o que fazer com ela. A raiva está presente no amor. O amor está presente na raiva. O outro lado da raiva é o medo. Quando a raiva tem um cunho pessoal, dirigida a alguém, gera obstáculos e muito karma. Quando tem um cunho impessoal, purifica. Quando sentimos raiva e não a direcionamos para ninguém, a raiva nos consome, mata e purifica. O problema é que em ambos os casos a energia é descendente e debilita o sistema nervoso.


A raiva de Deus também é impessoal e é uma das raivas que mais purifica. No módulo Relacionamentos Autênticos, no nível II de formação, o Yogi Bhajan nos convida a perdoar Deus. O perdão a Deus é daqueles mais difíceis de conceder. Pessoas muito religiosas têm muito medo de perdoar Deus. No nosso consciente coletivo esperamos que Deus nunca erre, e retratamos a realidade como vinda de Deus. Como é que pode, por exemplo, uma criança ser assassinada na escola? Onde está Deus? Deus não é pessoal. Ele é como uma entidade, algo que não sabemos exatamente o que é. Mesmo um ateu tem raiva de Deus! Ele não acredita em Deus, mas percebe, mesmo inconscientemente, que tem algo aí.


No trabalho com Kundalini Yoga não devemos desconsiderar a raiva como grande marca de amadurecimento. Se a raiva for um sentimento impessoal e nos permitir ficar alertas, ela pode nos dar muita força e persistência, ainda que em ambos os casos devemos perder energia e adoecer. A história é como transformar a raiva em inteligência, uma tarefa do triângulo superior, que é o tema do próximo semestre.


Kriya: Trabalho completo para o ser total, do manual do Proprietário do Corpo Humano


Não encontro imagem mais apropriada para ilustrar o tema da raiva que a do Guru Nanak, ao apresentar uma pessoa em um robe de fogo entrando no seu castelo de gelo. Essa é a imagem patética da raiva, do ego que se infla e veste robes de fogo para entrar no seu castelo de gelo.


Ainda que vejamos na raiva um sentido positivo, quando ela tem um cunho impessoal, ainda assim ela deprime nosso sistema nervoso, nos confunde, retira Prana. A questão é não ficar apenas no triângulo inferior, mas subir para o triângulo superior e deixar que o processamento da raiva não seja feito pelo corpo 1. Esse processamento precisa ser feito pelo corpo 2, senão sucumbiremos. Ainda que se leve um longo prazo, uma vida, para essa raiva ser purificada. Para termos, enfim, aprendido esse processamento e não mais a sentirmos.


Nunca nada é realmente ruim, porque temos tempo. Esse planeta ainda está sobre a lógica do tempo e do espaço. Não nos falta aqui, neste planeta, nem espaço nem tempo. Há condições em que o tempo é uma bênção. Mas não temos que esperar que o tempo nos cure, feito o queijo, porque o caminho do tempo é muito longo e doloroso. Nós, que temos essa tecnologia em mãos, não queremos nos submeter necessariamente a esse caminho. Queremos nos submeter ao caminho da consciência e, para isso, precisamos processar os eventos utilizando o corpo 2.


May the long time sun shine upon you...


[Transcrição: Sada Ram Kaur]

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