[GSK] Abrindo o espaço sagrado como uma sombrinha

Aula ministrada por Gurusangat Kaur Khalsa em 1º de março de 2019


[GSK abre a aula]


Todos estão querendo saber sobre a experiência do Re Man. A história é assim: sempre tive o convite das professoras do Sat Nam Rasayan para fazer o Japa Yoga com elas. Essas professoras têm uma experiência profunda de meditação, então seria uma grande honra fazer um Yatra com elas. Quando disse que iria, várias pessoas foram contrárias: “Não vai não, é um horror!”. Mas toda vez que pensava no Sat Nam Rasayan sentia muito aconchego dentro de mim e acreditava que não seria nada horroroso, que seria ótimo. Quero que me acompanhem porque essa experiência tem um lado cômico, trágico, e um lado maravilhoso. Gostaria primeiro de levá-los até a perspectiva desse espaço sagrado para poderem compreender o que estou dizendo.


Chegando no Sat Nam Rasayan ficamos dois dias em um hotel maravilhoso para aclimatar. As professoras sempre me preparando: “Gurusangat, vai ser um horror!”. Quando cheguei no hotel achei o lugar tão divertido! Um prédio verde-limão, dos anos 30, talvez. Uma coisa muito bucólica. E achei a comida ótima! Então começou o Re Man no espaço sagrado, uma experiência de meditação muito forte. É aquela experiência que o Guru Gobind Singh ensinava aos yogis. Que a yoga não deveria ser algo místico ou religioso, e sim uma entrega absoluta para a realidade da vida. Ele dizia que a realidade tem de tudo, coisas horríveis e coisas belas. Ela cospe deuses e demônios. Tudo isso é o Re Man. Mas quando estamos sintonizados na Corrente Dourada do som, mesmo os demônios e os anjos olham para a realidade e se apaziguam. A história do Re Man é essa: ao final, quando meditamos, nos tornamos Bodhi Budas. Quando nasce um Buda Dourado significa que seus olhos se tornaram limpos o suficiente para ver a realidade como ela é. Cria-se um espaço de muita segurança.


Mas nesse espaço de segurança e proteção despertado pelo Re Man houve uma contaminação de Salmonela na comida e cem por cento dos participantes caíram. Foi uma coisa horrível. Todos passando mal nas camas 24 horas por dia e ainda éramos convidados a olhar para essa realidade como parte da vida. Não estávamos isentos ou protegidos de absolutamente nada. Claro que foi uma grande falha, estamos falando de uma infecção gravíssima de Salmonela. Pessoas do mundo todo estavam ali, todos no mesmo lugar. Mas não caiu todo mundo junto. As pessoas foram caindo como um efeito dominó e não mais conseguiam fazer o Re Man. Ninguém pôde concluir. O Gurudev estava lá e a sala estava vazia.


Voltei antes de terminar porque tinha um trabalho importante para fazer na segunda-feira. O Hospital Sírio Libanês de São Paulo abriu um curso de especialização em Kundalini Yoga para os médicos. Era uma coisa bastante relevante. Voltei no sábado porque queria ter o domingo para descansar. Mas tive que cancelar minha ida ao Sírio Libanês porque voltei muito mal. E aí me permiti entrar em uma revolta, fiquei bastante revoltada com tudo.


Chegando aqui, precisei entrar no meu espaço sagrado para perdoar, visitar aqueles lugares todos e perdoar. Para melhorar, porque eu ficava cada vez pior. Essa foi a experiência. Lembram-se de como eu dizia para vocês que não sabia como eu ia me virar depois de quinze minutos? Tenho uma dor num tendão que desapareceu. Nos dias de Re Man que consegui fazer me perdia na meditação. Alguma coisa nessa limpeza ocorreu e desinflamou o tendão. No Kundalini Yoga, quando contamos uma experiência, ela nunca é uma coisa só. Ela é como a vida, sempre duas ou várias coisas.


Nosso trabalho de hoje, dando sequência ao que começamos a fazer nesse semestre, é um kriya que se chama "Acorde o corpo para lidar com o estresse e dificuldades". Um dos corpos que usamos para fazer isso é o corpo de Prana chamado Vyana. É o corpo que menos acessamos pela razão. Acessamos o Prana e o Apana com a razão na respiração. Os Udanas também podemos acessar com a razão movendo o Prana para cima. Mas o Vyana não.


O Vyana está longe do sistema neurofisiológico. Está muito mais ligado ao corpo radiante do que ao corpo físico. É o último corpo de Prana e é aquele que envolve o que o Yogi Bhajan chamou de força circumbenta – um vento que circula em volta do corpo prânico. É esse o Prana que podemos usar com a inteligência aplicada para nos direcionar para os meridianos do espaço sagrado. O espaço sagrado é formado por vários meridianos, como os meridianos da Terra. Os meridianos são campos de força que circulam a Terra do Pólo Norte ao Pólo Sul.


O nosso espaço sagrado tem meridianos também, como todo espaço sagrado tem. É com o Vyana que criamos esses meridianos. O espaço sagrado é mais ou menos como uma sombrinha. Ele está recolhido como uma sombrinha e, quando queremos, o abrimos. Quando fazemos isso criamos e expandimos o espaço sagrado. O Vyana não é nada mais do que essa ligadura com os meridianos cósmicos do espaço sagrado. A aula de hoje é para isso. Ao final teremos uma experiência de meditação muito boa. Raramente o Yogi Bhajan pede para uma aula ter um determinado mantra, mas nessa ele pede que seja o Dhan Dhan. Ele dizia assim: “Esse mantra torna aquilo que é impossível possível. É o mantra dos milagres”.


Kriya: Acorde o corpo para lidar com o estresse e dificuldades, do Manual para o Proprietário do Corpo Humano


A sombrinha do espaço sagrado está normalmente aberta. Qual o momento em que essa sombrinha é fechada? Qual o momento em que saímos do espaço sagrado? Qual é o núcleo daquilo que nos faz fechar a sombrinha?


O núcleo é: quanto mais estamos no finito, menos abertos estamos ao espaço sagrado. Quanto mais no infinito, mais no espaço sagrado. Todas as vezes em que estamos demais no nosso finito, nos relacionando com o imediato, estamos servindo ao momento. Todas as vezes em que estamos servindo ao momento nossa sombrinha se fecha. Mas temos que servir ao momento também. Como isso funciona? Temos que estar no momento e no todo ao mesmo tempo.


A minha experiência foi assim com essa Salmonela. Estava no meu momento, literalmente liquefazendo, muito mal. Ali nos recolhemos. Quando nos recolhemos, quando temos a sensação de perda de tudo, é um horror para o ego e ele tenta justificar. Meu ego imediatamente começou a dizer assim: “Ninguém merecia isso!”. Claro que isso não deveria ter acontecido, mas na hora que acontece temos que fazer um esforço e dizer: “Pera lá! Como é que vou perdoar isso tudo? Como é que vou me colocar no lugar de quem deixou isso tudo acontecer? Como é que vou ficar nesse espaço?”. Nos convocamos a sair desse lugar de servir o momento e começamos a servir ao mestre, ou seja, à consciência.


O espaço sagrado se recolhe muito quando estamos na reatividade do ego. Todas as vezes em que notamos que estamos reativos cabe a nós, que conhecemos o espaço sagrado, dizer: “Deixa eu abrir, deixa eu me tornar universal aqui”. Não quero dizer que vamos deixar de ter razão, de ter os nossos argumentos, de ter o nosso limite. Apenas passamos a compreender. Não é um exercício da razão. É um exercício de inteligência aplicada. O espaço sagrado é prática. Precisamos de prática para não sair dele tão facilmente.


Meditação com o mantra Dhan Dhan


Se entrarmos muito no espaço sagrado entenderemos o que o Yogi Bhajan queria dizer com Samadhi. Samadhi é uma ação. Sam é restauração. Samadhi é restauração da união. É uma ação de restauração entre os Pólos finito e infinito. No Nível I aprendemos que há uma técnica para fazer isso: se estamos no finito, vamos para o infinito e se estamos no infinito, vamos para o finito. Esse movimento é infindável e sua técnica se chama Pratyahara. Se estamos na pior temos que sair disso, ir para o infinito. Se estamos demais no infinito temos que voltar e nos comprometer, nos responsabilizar. Esse movimento de ir pro finito e infinito é uma técnica. É não esquecer que o infinito está em tudo para não ficar somente no ego.


Quando praticamos o Pratyahara a ponto dele se estabilizar no campo meditativo geramos um espaço que Gurudev chama de espaço sagrado, que é Samadhi, onde não tem nenhuma separação. Esse espaço sagrado criado aqui chega a ficar um pouco pesado, ele tem uma natureza. Fica pesado porque nos submetemos, nos entregamos. Existe um campo e esse campo tem um peso. Não é pesado no sentido negativo, é que ele tem uma massa.


Quando criamos uma entrada nesse espaço sagrado e meditamos nele estamos em Pratyahara. Todas as técnicas de meditação em Kundalini Yoga são para isso. Todas as suas meditações têm voz, som, para ajudar a criar essa técnica. Algumas vezes o serviço é tão bem feito que o Yogi Bhajan pede para voltarmos para o finito, para a Terra. Mas quando estivermos no espaço meditativo e pudermos estender nossa permanência nele e colocar algo ou alguém nesse espaço, não devemos interferir, porque nunca sabemos o que a outra pessoa ou coisa precisa. Não colocamos luz, pedras. O espaço sagrado tem sua própria inteligência e sabe o que fazer.


Uma das coisas mais incríveis da experiência da meditação do Kundalini Yoga com Sat Nam Rasayan é que ela leva radicalmente à raiz, o respeito ao outro, a autonomia e soberania do outro. Nunca sabemos do que o outro precisa. O Yogi Bhajan dizia que os curandeiros[1] poluíam a sua fé. Podemos nos entregar sem alguém nos dizer o que há de errado conosco. Embora para o outro talvez seja muito mais apelativo ter alguém que dê um diagnóstico, na natureza da tradição do Kundalini Yoga não fazemos diagnóstico.


O Yogi Bhajan visitava todos os curandeiros possíveis e imagináveis. Adorava conversar com eles. Tem uma lenda de uma tal Dona Leoba que está sempre nos retiros do Sat Nam Rasayan. A dona Leoba é uma curandeira mexicana, daquelas que andam descalças e têm um dente dourado. Um certo dia o Yogi Bhajan chegou em determinado lugar passando mal. As pessoas disseram para os curandeiros: “O Yogi Bhajan está aí, alguém pode atender?”. Todos os curandeiros que estavam lá, quando viam quem era voltavam e falavam que não atenderiam. Dona Leoba disse: “Eu atendo”. Ela foi a mulher que teve coragem de atender o Yogi Bhajan. Ele tem muito respeito pelas pessoas nativas que têm esse conhecimento que vem da natureza. Nunca se expressou sobre isso, mas nos levou a crer que nós, brancos, temos uma tendência de querer apropriar de tudo e achar que sabemos sobre aquela coisa.


Mais ou menos como aconteceu comigo uma vez, quando estava em Berlim com uma amiga afro-alemã. Ela me convidou para ir a uma exposição sobre altares africanos, uma coisa muito linda. Cada tenda era o altar de um Deus e havia toda uma decoração maravilhosa. Estava caminhando com essa amiga e na nossa frente estava uma alemã, dessas bem convencionais. Diante de cada altar ela tinha um ziriguidum. Essa minha amiga negra falou: “Você não se envergonha de ver uma alemã fazer isso como se estivesse sentindo a energia desse Orixa? Quem é ela pra sentir alguma coisa?”. A mulher era aquele clichê espiritualóide, passava em frente ao Orixa e tinha uma conversa com ele. A pessoa não tem humildade de dizer que não sabe de nada disso, que não conhece.


“Eu faço ajuste de chakra, coloco cristal, faço Reiki, Kundalini Yoga”. Yogi Bhajan dizia: “Faça uma coisa bem feita e aí você vai fazer tudo isso”. Essa foi uma grande moda nos anos oitenta. Quem não fazia pelo menos umas cinco coisas não fazia direito. Yogi Bhajan tinha respeito, mas tinha críticas também.


Compreenderam o tema da aula de hoje? O nervo que nos faz abrir o cabo dessa sombrinha é o ciático. A sombrinha fechada é o ciático em condições normais: os zumbis que somos normalmente. Existem formas inteligentes de zumbis, formas deploráveis, há zumbis de vários tipos. Tem aqueles zumbis que abrem a sombrinha até determinado ponto. Esses são perigosos, porque exploram o campo sagrado com a projeção do Vyana e ali não é seguro. O Yogi Bhajan alertava que o que nos dá segurança é estarmos sempre em uma entrega crítica, atenta, buscando credenciais, porque estamos falando do campo da cura. A aula de hoje foi para experimentarem o que são esses meridianos do espaço sagrado e o quanto eles têm uma relevância para o nosso modo de viver.


May the long time sun shine upon you...


[Transcrição: Devaroop Kaur]



[1] Em inglês o termo não é pejorativo.

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