Filosofando sobre a Voçoroca

por Sat Meher Singh


Passei o sábado e o domingo passando o existir entre passos. Caminhamos (muito), eu, mais outro professor de Yoga e um grupo de três alunos do curso Homens Autênticos. Para fecharmos esse processo com chave de ouro, resolvemos ter uma experiência de proximidade com a natureza, e o local foi a Serra do Espinhaço, próxima à Lapinha da Serra.


Quando estávamos quase alcançando o objetivo do primeiro dia da caminhada, o visual era este: de um lado o Morro dos Três Irmãos e do outro uma voçoroca. Particularmente, tive uma fixação pela palavra voçoroca. Ela me trazia uma nuvem esparsa de sentidos difíceis de vislumbrar, mas a carga semântica era negativa, algo como roçado, roca, corrosão, desgaste, buraco, depressão. Me lembrei vagamente das aulas de geografia e pude constatar visualmente que a voçoroca é uma grande erosão que (possivelmente) vai sendo aberta aos poucos, porque o tempo anda devagar quando não tem gente por perto.


De um lado havia o que é relevante, o que nossos olhos facilmente percebem, o que salta às vistas porque é grande, imponente, soberbo e que merece até nome próprio, Três Irmãos. Do outro, um buraco, feito parece que a esmo, estranho, antiestético (quase antiético) que nossos olhos veem, sabem que existe, mas não é relevante e nos dá uma vontade danada de lhe negar as vistas. E eu caminhando no meio.


Como amigos do Kundalini Yoga, aprendemos a aprofundar nossa visão sobre os pares de opostos que há em todo paradoxo. Nesse mergulho, descobrimos uma rota, um caminho, que une os extremos e passamos a entender mais sobre a proximidade entre eles do que a distância. O que separa é o que aproxima, esse é o paradoxo do paradoxo.


Foi assim que olhei em perspectiva a paisagem em que estava. Havia morro, é verdade, e havia um buraco, também é verdade. Mas, fui capaz de ver parte da relevância do morro, no buraco e parte da fundura do buraco no morro. Eu arriscaria dizer que a existência dos dois dependia de suas diferenças e que elas compunham as semelhanças entre eles. O buraco é um morro que se afundou na terra e o morro um buraco que subiu aos céus.


É com essa imagem que gostaria de inspirar a todos a olharem para a vida. Vão haver voçorocas e morros. Não deveríamos ser tão rasos a ponto de apenas querer enxergar o que nos salta aos olhos e nem depressivos demais a ponto de cultivar nossas erosões. Mais valeria se aprendêssemos a olhar os dois, não como antagonistas, mas como irmãos. O morro que eu vi, foi a voçoroca dos quatro irmãos.

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