A mulher no Sikh Dharma

SS Gurusangat Kaur Khalsa


Era uma tarde daquelas quentes e insuportáveis de Berlim. Pleno verão. Nada era animador sob aquele calor escaldante, exceto para todos os alemães, claro, que se estendiam sobre um gramado macio de parques e lagoas, despidos totalmente, para o famoso banho de sol. E que banho, meu Deus! Peguei minhas coisas e saí da Staatsblibiothek decidida a me reconfortar em qualquer lugar gelado da cidade, naquela época ainda com o muro. Berlim da época era o paraíso para vegetarianos, feministas, artistas, ativistas e pesquisadores como eu.


Saí pedalando direto para o Einstein Caffe, um dos meus favoritos não apenas pela arquitetura neo-clássica e excelente café, mas porque sempre às quartas-feiras abriam ao público parte do acervo da biblioteca orientalista da casa. Logo foi atraída por um exemplar antigo e belo. Era o livro de 1765 do historiador oficial da corte afegã que invadira a Índia várias vezes, Qazi Norr Mahammad. Meus olhos se arregalaram onde lia-se o seguinte: "esses cachorros denominados Sikhs são estranhamente éticos. Eles sacaram suas espadas e atacaram a tenda. No momento em que entraram, todos paralisaram com suas espadas ainda no ar. Notei que eles haviam adentrado uma tenda de mulheres. Todas elas eram lindas e estavam ali para servir os soldados, vestiam-se com robes caros e portavam joias em ouro, diamante e pérolas. Eu então pensei que esses kafirs (sikhs) não poupariam nenhuma mulher e, certamente, depois de desonra-las, roubariam-nas. Mas, para minha surpresa, eles colocaram suas espadas de volta na cintura quando o líder do grupo pronunciou as seguintes palavras: Khalsa Ji, esta tenda é de mulheres, vamos embora. Nenhuma mulher deve ser tocada”.


Eu estava muito interessada e não queria ficar apenas na fachada da leitura. O relato seguia: “Entre eles não há ladroes, não há adultério, ninguém ingere intoxicante. Eles não se deixam seduzir por prazeres humanos e consideram seus inimigos seus iguais. Eles não nos veem como inimigos. Em batalhas onde fomos tristemente derrotados, eles caminharam até nossos feridos com água e médicos para prestar os cuidados idênticos àqueles que dão aos seus próprios homens e mulheres. Eles respeitam todas as mulheres, mesmo as nossas. Para eles, a mulher é sagrada e chamam-na, independente da idade, de bhuddhya (sábia). Seu chefe espiritual, Gobind Singh anuncia que desertaria da Nação Khalsa aquele que praticar as formas costumeiras dos vencedores sobre os vencidos, quais sejam, o estupro e a escravização das mulheres como expressão de poder sobre o inimigo. Ainda há de se notar uma grande estranheza dessa gente: eles nunca lutam contra os covardes que, amedrontados, fogem do campo de batalha.


Minha vida seguiu seu curso, estive novamente em Berlim no início dos anos 90 para fazer meu doutorado em medicina, onde, por voltas estranhas e mágicas, eu me deparei novamente com essa Tradição que tanto ressoava com meus valores e vida, e dela nunca mais me apartei.


O Sikh Dharma surge com nascimento de um grande professor, Guru Nánâk, da mais alta casta hindu, em 1469. Deste momento até a morte do seu último Professor, Guru Gobind Singh, em 1708, coincide com o estabelecimento do império Mogol na Índia (O Império Mogol dominou sobre quase todo o subcontinente indiano. O nome em português dos seus soberanos era grão-mogol). Os mogois seguiam uma política de perseguição e opressão. Os praticantes do Sikh Dharma se opuseram a tal política e se sacrificaram para manter os direitos fundamentais de liberdade religiosa, justiça e progresso. A criação do Sikh Dharma foi uma resposta direta aos eventos sociais e políticos que dominavam o oriente da época. Guru Nánâk vivia numa sociedade profundamente dividida entre hindus e muçulmanos.


Os muçulmanos, a partir do ano 1000 d.c deram início a uma campanha de conversão ao islã com uso da tortura e da escravização de mulheres e crianças. Os nobres e a realeza mantinham escravos, os ghulams. Embora a norma da igualdade estivesse presente nos cânones islâmicos, a mesma não era respeitada pela sociedade muçulmana, que se dividia em várias castas. A sociedade hindu não era muito diferente, uma vez que a segregação social em castas era, e ainda é, a norma dos hindus. No século 11, o renomado matemático persa Al-Biruni descreve a sociedade hindu da seguinte maneira: “Existem pelo menos 36 grupos sociais e, com exceção dos os Brahmans (sacerdotes e professores) e Kashatrias (guerreiros), os demais vivem em pobreza abjeta. A condição dos intocáveis é desumana. Mulheres estão em condições ainda piores. Elas são consideradas inferiores aos homens e as viúvas são levadas a se matar na pira mortuária de seus maridos. Os sacerdotes Brahmans advogavam rituais inúteis como forma de perpetuar sua opressão sobre as pessoas comuns”.


Essa norma social se manteve inalterada no século 15 e Guru Nánâk presenciou uma sociedade degenerada em grande escala. Abusos religiosos, corrupção, manipulação e violência eram comuns. As pessoas tinham perdido toda a confiança na classe religiosa, que se mantinha no controle e abusando de seu poder. A maioria absoluta padecia de direitos humanos básicos tais como igualdade, liberdade e justiça.


Guru Nánâk, aos 30 anos, rompe as normas prevalentes afirmando que todos seres humanos eram iguais, intitulados a viver dignamente. Todos eram um, e Deus estava em todos e tudo. Guru Nánâk cunhou o conceito de “Ek Ong kar”, definindo Deus, AKAL PURAKH, como uma a Força primal criativa. Ele abala tudo quando também afirma em seu ministério que, o quando um homem cai, um homem cai, mas quando uma mulher cai, uma geração inteira cai.


Na visão do Guru Nánâk, os indivíduos devem ser livres e soberanos para escolher sua fé. Deveriam ser educados para poder se envolver com a construção de uma ordem social e política que garantisse os direitos humanos fundamentais e revogasse o determinismo espiritualista de nascimento, ou seja, o sistema de casta. Ele ainda se posicionava veementemente contra a escravização e coisificação da mulher.


Foi uma revolução. Ameaçou os tiranos e exploradores, ameaçou os patriarcas, mas ninguém o impediu de criar um modelo de sociedade justa e fraterna. Nas cidades construídas por ele e seus alunos surgiu uma esperança, principalmente para aqueles excluídos e abusados, humildes e fracos. Guru Nánâk criou uma nova ordem, os Sikhs (os que buscam aprender) advogou a causa da justiça e da tolerância até sua morte. Seus Ensinamentos eram para todos, independente de casta, gênero e afiliações políticas e religiosas.


Ele e seu companheiro muçulmano Mardana viajaram o mundo e chegaram também em Roma, sendo que seu encontro com o Papa Leão X no Vaticano é de excepcional significância. Documentos publicados recentemente pelo Vaticano dão conta da presença de “Nanac” e seu músico (Mardana) no Conclave Romano de 1518, ocasião em que o Papa instruíra todos os cristãos a seguirem os passos de Nanac, a quem ele denominou “o Pai de nossa raça”. Ele pede ainda que todos os cristãos agradeçam Nánâk por sua ajuda na Itália e em outros lugares que ele visitara no mundo. A recomendação de Nánâk ao Papa era pôr um fim à escravidão e empenho pela paz no mundo.


Em comemoração à visita do Guru Nánâk a Roma, o Vaticano cunhou sua imagem em bronze e a fixou no jardim sul da Basílica de São Pedro com os dizeres em Panjabi ੴ, que significa “Ek Ong Kar”.


A influência de Guru Nánâk era tamanha, e os sinais da universalidade de sua mensagem tão fortes, que ele se tornou o Lama Nánâk para os budistas, o Majid Nánâk para os muçulmanos, o Baba Nánâk para os hindus, e o Nanac para os católicos.


Guru Nánâk trabalhou na terra e criou uma cultura contrária ao costume da época que afirmava que a realização espiritual só era alcançada no isolamento e na vida celibatária. O testemunho espiritual na cidade, ao contrário das cavernas, rendeu ao Guru Nánâk o mérito de provar, pela primeira vez, que a sabedoria alcançada em meio ao caos era, mais do que tudo, necessária, porque o praticante serviria como um catalizador desperto a serviço de uma sociedade livre de coerção religiosa, prisões sociais e opressão política.


Em suas cidades, ele instituiu o conceito de Sangat (comunidade), Langar (oferecer comida gratuita e fresca a todos), Sadhana (disciplina espiritual como Kundalini Yoga e meditação), Shabd Guru (vibrar o Som Primal) e Educação. Uma nova identidade foi criada e também uma plataforma de troca de ideias sobre problemas comuns gerando um sentimento de consciência de grupo. Como consequência, o sentimento de pertencimento entre seus alunos foi gradualmente ganhando corpo, que passaram a compartilhar valores muito distintos daqueles de suas comunidades de origem.


Foi assim que começou uma silenciosa revolução do espírito tendo Guru Nánâk como protagonista. Suas ideias radicais e contrárias à ordem social de sua época provocaram a revisão de conceitos e práticas em voga. A educação para Guru Nánâk é um direito natural, particularmente para as mulheres. As mulheres deveriam ser tratadas com honra e respeito, e seus agressores punidos pela lei. As pessoas deveriam ser livres para praticarem suas religiões, com respeito mútuo. Para ele, a maior religião de todas era aquela que congrega não pessoas de uma mesma fé, mas pessoas de uma mesma consciência e que se propõe a servir incansavelmente ao bem comum e ao progresso de todos os seres.


Guru Nánâk deu o exemplo e insistiu que as pessoas do espírito trabalhassem como outra qualquer e ganhassem seu dinheiro com o suor de suas próprias testas. Era também seu pensamento que todos deveriam ter garantido o direito de desfrutar dos benefícios de seu trabalho. Segregação social e cultural deveriam ser completamente abolidas, permitindo assim que cada ser humano fosse livre para se expressar e se desenvolver de acordo com seu próprio destino. Finalmente, ele ensinava que desenvolver a mente meditativa para ver a luz do Divino em todos era um meio seguro para destravar o completo potencial do ser humano.


Guru Nánâk foi um ativista social. Seus ensinamentos atraíram pessoas dedicadas a fazer tudo diferente. Nos 250 anos após sua passagem, nove outros professores o sucederam e continuaram seu trabalho esculpindo seu legado. O resultado foi uma revolução interna. Cidades e comunidades se formaram onde pessoas de diferentes religiões viveram em harmonia e trabalharam juntas, lado a lado. Mulheres receberam educação e foram enviadas para várias regiões para ensinar outras pessoas. O trabalho era feito por pessoas de diferentes castas, e seus ganhos garantiam o lazer e as conquistas sociais de todos.


Hoje, aqui estamos nós carregando a tocha acesa pelo Guru Nánâk há 500 anos. Aquilo que começou como uma revolução da consciência, um movimento de igualdade social e econômica, de inclusão religiosa e tolerância, continua sendo esculpido por nossas mãos. O trabalho precisa continuar.


A base filosófica do Sikh Dharma não empreende nenhum esforço para conferir propósito a um Deus que exista fora do indivíduo. Menos ainda busca aferir a um suposto “juiz divino”, uma autoridade superior para nos julgar. Sendo Akal Purakh a Inteligência Primal, a Arquiteta do Universo, que vibra em tudo, em nós particularmente, o referido juízo divino só pode ser o nosso próprio, em nossa mente e consciência. O maior propósito na vida de um praticante do estilo de vida do Sikh Dharma é obter o substrato espiritual e reconhecer que a consciência divina está presente em todos os seres. Esse desafio é grande, porque implica agirmos com empatia em situações e com pessoas que não são essencialmente “divinas", muito pelo contrário. Ouvi de meu professor de Kundalini Yoga, Yogi Bhajan, que também era um Sikh a seguinte frase “if you can not see God in all, you can not see God at all” (se você não pode ver Deus em tudo, você não pode ver Deus de forma alguma) é formidável para explicar o núcleo dos Ensinamentos do Guru Nánâk. É justo dizer que a empatia e a compaixão não são princípios filosóficos, mas um estilo de vida. Não há escolha a fazer, a não ser existir e ser respirado por ambas.


Para mim, o mais impactante dos Ensinamentos do Guru Nánâk foi entender que não sou o resultado do meu passado. Eu não sou o meu passado melhorado, piorado, aprisionado, resolvido ou mesmo, superado. Eu sou meu futuro. Eu estou à frente do meu tempo. Eu me empenho em juntar luminosamente meu agora com o meu amanha. Eu afasto qualquer sinal de vitimização ou lamúria sobre o meu hoje. Hoje eu sou o meu amanhã!


Gurusangat Kaur Khalsa, PhD

Ministra do Sikh Dharma, médica com doutorado pela Universidade de Berlim (Freie Universität Berlin), professora de Kundalini Yoga, escritora e ativista social.


Belo Horizonte, 29 de Janeiro de 2019


Uma versão editada deste texto foi publicada na Revista Senso. Para acessá-la, clique aqui

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