Soltas Notas sobre Viagem à Índia (IV)

18 Mar 2018

por Sat Meher Singh

 

#11

Enquanto aqui nós dizemos “não deixe a peteca cair” para expressar o sentido da perseverança, no Templo Dourado eles diriam “não deixe a frequência baixar”. Tive a oportunidade de ver essa frase sendo levada ao pé da letra. 


Era madrugada quando eu e mais dois professores havíamos terminado de arrumar nossas malas (foi um verdadeiro jogo de pesos e contrapesos, porque tínhamos muita restrição de bagagem em nosso voo de volta a Delhi e não estávamos dispostos a exercitar o desapego). Resolvemos emendar e ir ao Templo Dourado fazer o Ishnan (sagrado banho) nas águas sagradas do Sarovar (lago sagrado que circunda o Templo Dourado). Ao caminharmos às margens desse lago, escutávamos vozes entoando “Wahe Guru”, na dinâmica “chamado-resposta”. Depois da benção de mergulhar naquelas águas, nos secamos e fomos à sala em que parecia ser o mantra que (en)cantava as pessoas, não o contrário. Era só isto: de 23h30 às 02h30 (período em que há mais densidade na noite), algumas pessoas se reuniam para simplesmente entoar “Wahe Guru” e não deixar a frequência do lugar baixar. E era isso tudo!

 

Uma constatação: o Templo Dourado não para. Ele pulsa, ele vibra! O Templo Dourado não é visitado, porque é ele que nos visita. É ele que entra em nosso coração e toma conta de nossos sentidos. É ele que nos revela a dádiva de se viver a vida como dádiva. É ele que nos ensina o conceito real, profundo e sem romantismo de Chardi Kala: mantenha seu espírito elevado e utilize os ventos contrários para alçar voos mais altos. É ele que nos impulsiona a servir e a sorrir. É ele que sustenta a peteca no ar, apesar dos pesos e contrapesos da vida.

 

Descobri isto: o Templo Dourado, mais do que um lugar, faz vibrar Deus que nos habita, enquanto também vibramos, habitando em Deus. O sentido do Yoga talvez seja compreendido quando o Deus habitante e o Deus habitado se revelem na experiência de serem um só ser, o tudo e o nada juntos.

 

Talvez esta seja a última nota! Primeiro porque 11 é um número bonito. 11 é o número do Siri Guru Granth Sahib na sequência dos 10 Gurus Sikhs. 11 me revela a ideia de recomeço. Enquanto o 10 traz acabamento, arredondamento, o 11 nos desloca, nos provoca a olhar para frente e entrar em movimento. O 11 nos convoca intensamente à vida! Porque essa é a sensação que cultivo em mim depois desse Yatra: a Índia me provocou a viver a vida na experiência dela mesma, profunda, intensa e vasta. A Índia é dura, contraditória, extraordinária. Saí de lá querendo sair e cheguei aqui querendo voltar. E, entre esses extremos, o que mais importa é o senso de realidade e compromisso que me toma e me envolve. Depois de viajar tanto a ponto de perder a noção do calendário, sei que as viagens se amalgamaram: a externa foi para dentro e a interna foi para fora. É assim que me sinto.

 

Para terminar (ou seria recomeçar?), quero compartilhar uma frase que escutei no contexto do Kundalini Yoga e que, vira e mexe, atravessa o meu caminho: “Acredito em vida antes da morte”. E você!?

 

[Para continuar lendo toda a série, acesse: Parte I Parte II , Parte III]

 

 

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