[GSK] Se tornar irrelevante em shuniya

30 Oct 2016

Aula ministrada por Gurusangat Kaur Khalsa em 28 de outubro de 2016

 

[GSK abre a aula] 

 

Hoje nós vamos fazer uma aula que leva a gente para um relaxamento de dentro para fora. Não é um relaxamento igual àquele que você busca um terapeuta para te relaxar de fora para dentro. Portanto, é uma aula que induz a um relaxamento que não tem nada a ver com o conceito de relaxamento que vocês conhecem, que é aquele em que você sente que apagou, que está tranquilo, sem estresse, está em paz. É um mecanismo de relaxar a maneira com que a gente processa a intranquilidade e a ausência de paz.

 

Vocês são professores de Kundalini Yoga, por isso eu sempre me preocupo em conversar com vocês sobre alguns aspectos teóricos para vocês compartilharem com seus alunos, familiares, amigos, com quem vocês acharem que é importante. E cada oportunidade na vida, cada encontro, cada coisa que surge do inesperado na vida da gente é uma oportunidade de a gente refletir. Primeiro de a gente aprender e, segundo, de a gente ensinar. Então não existe nada na minha vida, por exemplo, nenhuma dor e nenhuma alegria que não me ensine e que não me faça sempre tratar isso de modo a pensar que vocês precisam ver e entender isso.

 

Estou sempre com vocês e aí aconteceu uma coisa inacreditável na minha palestra na Escola de Música da UFMG, na terça-feira. Foi muito divertido, porque foi tão ruim...não... não posso dizer que foi ruim... foi tão... inacreditável, eu acho que a palavra inacreditável ainda é a melhor para vocês verem que a nossa paz e a nossa tranquilidade não têm nada a ver com o meio, ou pelo menos não deveria ter. Na UFMG, eu chamei o Sat Sunder para trabalhar comigo, porque é o tema que ele está trabalhando na formação. Nós fomos para o encontro de estudantes e você pensa que os universitários estão ali querendo trocar. Chegamos lá e, de fato, era um grupo grande de talvez umas 50 pessoas e havia uma alegria em nos receber. Existia uma alegria em nos receber, porque éramos duas pessoas absolutamente inéditas (estão compreendendo?) e um gongo daquele tamanho, de turbante.

 

Eu por exemplo vestida de uma maneira tão causal, que eles não sabiam como a minha roupa combinava com meu turbante, esses clichês de que a roupa não combina com o turbante de mãe de santo ou de sacerdotisa, enfim, eles não conseguiam nos encaixar. Nada encaixava. Quando a gente começou a trabalhar, algumas pessoas maravilhosas na plateia começaram a nos entender. E havia três garotas sentadas no canto o tempo todo conversando e rindo, igual a colégio de freira, onde a gente está mais preocupado em ir para a igreja dar uns beijos do que ir para a aula, uma coisa assim. E vocês sabem que eu tenho uma antena para gente idiota que é uma coisa impressionante, eu pensei, bom daqui a pouco eu vou ter de explicar uma coisa para aquelas dali. Então passa o momento todo até que chega a vez do Sat Sunder, então eu dei o Kirtan Kriya, sa ta na ma, totalmente inofensivo, e depois o Sat Sunder... boin...boin.. boin.., ainda bem que ele foi suave, doin... doin... plein...plein... Quando abriu-se para as perguntas, uma das meninas levanta, e para ela o conceito de liberdade – que é o que eu quero tratar hoje –, escrito nas entranhas e na testa dela é: "eu falo o que eu penso". E para muitos é isso. Para muitos que lidam com escola sabem que é isso. Tem uma faixa etária a partir da qual, e é a geração que veio logo depois de mim, ou seja, se eu tenho 58 anos, o pessoal que veio dez anos atrás de mim, vem com esse conceito de que falar o que pensa é uma libertação. E a menina então levanta, eu não vou me lembrar como ela falou, mas ela acaba com o Sat Sunder e nos chama de irresponsáveis, porque a gente fez uma intervenção com musicoterapia sem avisar que poderia alterar, alguém poderia passar mal. E ela disse que ela mesma inclusive quase surtou.

 

Aluno: Ela falou isso?

 

[GSK]: Falou. E para mim foi a deixa, né? Eu falei com ela: você não teria surtado, porque surto é uma condição psicoterápica bem diferente da histeria. Em condições populares o que você teria tido seria uma coisa chamada chelique. A menina nunca viu um professor... os professores hoje não falam assim, que eles têm medo de o aluno ir lá na avaliação da Capes e dizer que o professor é autoritário e tal. Eu dava tanta risada! Menina, você é uma cheliquenta e o seu conceito de liberdade é falar o que pensa, mas falar o que pensa é um estado particular adquirido, que se chama falta de educação. E daí eu tive a chance de falar a respeito do trabalho do gongo. E depois a turma inteira depois veio me agradecer porque aquela menina era uma chata. Ela tinha acabado com o professor que veio de São Paulo.

 

Mas vamos voltar ao tema: falar o que pensa não é liberdade. Esse é o tema que acho importante para vocês tratarem em sala de aula. Nós meditamos para que a gente se torne absolutamente irrelevante. É para isso que a gente medita. Então a nossa irrelevância no processo de meditação deveria ser desejada. Ela é proporcionalmente oposta a quando a gente está na vigília com o desejo de ser alguém. Então, na vigília nossa necessidade de ser alguém nos leva a um mecanismo de existir absolutamente infeliz, mesmo na vigília, porque quanto mais a gente quer ser alguém, quando estamos de olhos abertos e fazendo as nossas coisas, mais no espaço meditativo nos identificamos com algumas formas pensantes. E enquanto há pensamento, há prisão. Todo pensamento surge de uma condicionante, se há uma condicionante, há uma condicional, e se há uma condicional, há uma prisão. Então enquanto a gente pensar, a gente está aprisionado ou a gente está aprisionado culturalmente ou a gente está aprisionado fisiologicamente por causa do nosso sistema glandular, que vai transformar aquilo em química, e isso é uma prisão quando repetimos um padrão, quando estamos subjugados ao meio. Quando o meio está favorável, a minha fisiologia está favorável, quando o meio está desfavorável, a minha fisiologia está desfavorável. O condicionamento fisiológico é quando eu não tenho nenhum controle sobre as minhas emoções.

 

Aluno: Kalil!

 

[GSK] A falta de expressão de emoção também é um problema. João Leite! Vocês estão comigo? Então a minha prisão pode ter vários condicionantes e dentro deles eu estou sendo estimulado, condicionado a pensar. Então, todas as vezes que eu falo o que eu penso é uma prova cabal de que eu não tenho o menor controle de mim no meio. E isso é tudo que o Kundalini Yoga não quer. No Kundalini Yoga, nós queremos que se o meio está desfavorável, e esse meio é externo, mas o meio poderia ser interno... Por exemplo: num dia em que eu levantei com a macaca, deprimida, desestimulada, quando não estou bem porque tudo à minha volta parece estar despencando, ainda assim existe uma opção para mudar essa condição. E se vocês sabem que isso é uma verdade por que vocês não usam? Se eu tenho uma dor de cabeça, existe remédio para dor de cabeça, por ideologia? Porque eu só uso remédio homeopático ou eu só vou ao terreiro quando eu estou com dor de cabeça? Há uma condição de você escolher se conectar com a sua irrelevância. E na hora que vocês escolherem se conectar com essa irrelevância – e eu espero que com essa aula vocês consigam isso –, vocês mudam essa química.

 

É uma abordagem inédita, pois nunca falei disso dessa maneira, mas a experiência de shuniya é isso: para você se tornar um com todo, você tem de se perder no todo e a hora que você se perde no todo, você deixa de ser você. O que a gente busca em shuniya é uma irrelevância tão grande que a gente é capaz de se tornar tudo. Você nunca vai conseguir ser nada se você continuar sendo você. Isso que é maravilhoso no Kundalini Yoga porque a gente busca ser a gente numa instância e deixa de ser a gente em outra instância. É esse o paradoxo que o Yogi Bhajan fala: "to be and not to be". Então, quando é que a gente quer ser irrelevante? Quando estamos buscando uma autenticidade e uma unidade tão grande com Deus, com o desconhecido. Quando é que a gente precisa ser relevante? Quando a gente vai servir. A gente vive nesses dois paradoxos. A maior parte das escolas de meditação não ensinam esse paradoxo, então você fica perdido.

 

Eu só quero dizer a vocês o seguinte: depois que a menina arrotou e vomitou, o professor que estava presente explicou que no dia anterior eles tinha tido muitos problemas com as palestras de musicoterapia, porque todos eles faziam uma prática e falavam as contraindicações. E por que nós não falamos das contraindicações da nossa prática? E aí foi maravilhoso porque eu pude explicar para ele que o Yogi Bhajan nunca deixou nas nossas mãos uma técnica que tivesse contraindicação, a não ser uma: o cuidado com as pessoas com esquizofrenia, porque elas podem entrar em surto com a respiração. E o professor perguntou como não tinha contraindicação. E tudo que eu tinha dito era que nós usamos os sons primais. E eu respondi que era porque trabalhamos com o Naad, que é uma estrutura, uma técnica de usar o som primal, e esse som te reseta na origem, no início. Nós não somos terapeutas querendo saber se você está ou não doente, onde está ou não o seu problema, porque nós não vamos trabalhar o seu problema onde ele está. Vamos trabalhar na sua raiz, é muito diferente. O que você vai fazer com seu problema é problema seu. Eu olhei para a menina e perguntei se ela tinha escutado. Ela estava conversando, mas disse que tinha ouvido sim. Eu disse que era impossível, impossível para ela repetir. Vocês compreendem a segurança que o Yogi Bhajan dá. Por isso que acho uma dó, quando vocês misturam qualquer coisa de outro sistema de yoga com Kundalini Yoga. Se vocês estão indo para as suas práticas, seus cursos, seus seminários e misturam, estão poluindo uma coisa que te dá segurança, e quando você mistura, não tem mais segurança.

 

Ele não fez isso só com os Kriyas do Kundalini Yoga, ele fez isso com o gongo. Quando a gente saiu, o Sat Sunder dava saltos de alegria. Eu perguntei se ele estava alegre, e ele disse que estava feliz demais, porque tinha aprendido tanto naquele dia. Porque vocês conhecem a tecnologia para falar para um público que muitas vezes tem perguntas: como é que vou curar isso ou aquilo. Por isso que um professor de yoga não está aqui como terapeuta, ele está aqui como um professor. Ele passa a tecnologia e o aluno vai fazer o que quiser com ela, inclusive nada ou tudo, ou um pouquinho entre nada e tudo, ele pode escolher. Vocês entendem isso?

 

Nosso objetivo na prática meditativa é nos tornarmos irrelevantes, para a gente entrar em shuniya. Vocês acreditam que estar em shuniya é estar num estado assim, sei lá como é descrito nesses livros fenomenais, românticos, estar fora do espaço da ação. Não! Shuniya é estar no fluxo da ação. Qual tipo de ação onde sou tomado completamente por uma qualificação, me torna aquilo que eu estou querendo fazer. Então se eu sou uma adoradora de garrafa preta e tem uma garrafa preta nas minhas mãos, então limpar a garrafa preta e, se eu sei limpá-la, eu posso entrar num fluxo tão grande, onde eu perco a minha própria identidade quando eu limpo a garrafa preta. E eu me torno alguma coisa além de mim e da garrafa preta. Isso acontece quando você anda de bicicleta. Isso acontece quando eu, por exemplo, estou escrevendo um texto para vocês, motivada. Isso acontece talvez quando você está na cerâmica produzindo alguma coisa, ou quando você está na cozinha, fazendo alguma coisa. É quando nós e o objeto da nossa ação é tão integrado e existe tanto conhecimento que a gente pode relaxar no fluxo da competência e aí a gente se perde e não sabe quem a gente é. A gente se esquece de si. Então shuniya é quando há um esquecimento de si. E então você se torna irrelevante, tampouco o objeto tem qualquer importância. O que tem importância é a ação. Que na psicologia é descrito como fluxo, estar no fluxo.

 

Kriya for Metabolism and Relaxation do livro Kriya

 

Hoje vamos fazer uma meditação em duas poses. O Yogi Bhajan fala o seguinte sobre a ela: essa meditação vai te levar a um estado de êxtase e vai criar um escudo protetor a sua volta.

 

Meditation for Self-Stimulation into Ecstasy do Livro Kriya

 

Aluna: Quando você fala desse relaxamento interno, ele tem a ver com a sua serenidade diante do caos?

 

[GSK]: Tem, tem sim. Mas todo e qualquer tipo de conceito a gente precisa desmistificar. Porque então uma pessoa que não é serena diante do caos pode parecer que não se ajustou. Tem a ver com a serenidade diante do caos, tem a ver com o desespero diante do caos também desde que esse desespero não te leve a agir segundo ele. Não sei se vocês estão compreendendo. É a inteira independência da sua ação, independência daquilo que você está sentindo e de como você está processando o mundo. Quando você alcança esse equilíbrio e essa liberdade e isso reflete na sua natureza interna de estar serena diante do caos, é isso aí. Mas não significa inclusive que você não está dando a mínima bola. Porque a história é: na serenidade você ainda estar em ação. Mas se meu produto final, meu vetor final quando eu trabalhei, pus gás para fora, limpei, alimentei, adquiri uma certa independência ou uma liberdade em relação ao meio e inclusive ao meu próprio meio, mas eu reajo não serenamente, se o resultado final de uma pessoa é estar agitada ou indignada, ela não vai ter como, muitas vezes, eliminar aquela sensação. A única coisa que ela não pode fazer é agir com base naquela sensação. Nem a serenidade deveria levar a gente a uma indiferença, nem a ausência da serenidade deveria levar a gente uma ação pouco serena. O que a gente quer é agir de forma precisa, cirúrgica e essa ação não pode estar condicionada pelos meus sentimentos nem pelo meio.

 

Por isso é que as escolas que existem por aí ensinando criança são problemáticas porque o modelo de ensino não pode ensinar que o engajamento com a vida deveria ser motivado ideologicamente. Então, toda a pedagogia da UFMG ensina isso. O contrário é a pedagogia Waldorf, que ensina um total desapego. Está errado também. Vou ver o mundo serenamente e minha ação vai ser indiferente. Aquilo não vai me tocar. Foi uma alternativa polarizada, mas existe um lugar além disso, que é o que a gente precisa ensinar às crianças. Que é: você precisa sentir o mundo, absorver o mundo, processar o mundo em você com todas as suas emoções e gana. Estar de tal forma relevante, você e o mundo, é muito importante que nesse momento você esteja relevante, e você precisa discernir. E quando você pode discernir, você precisa entrar no fluxo e agir no fluxo da consciência em que você e o todo são um. Você não importa, aí sim você se torna irrelevante. Por isso sua ação tem de ser independente daquilo que você julga. Você não pode ser tão sereno que não queira se engajar, nem tão atordoado que você queira entrar de sola. E está aí um aspecto do Kundalini Yoga que é absolutamente maravilhoso, que é a vida como ela é. Ele quer instrumentar a gente para a gente viver de forma a fazer sentido, onde você combina relevância e irrelevância, identificação e desidentificação, o tempo todo. E não cria um padrão, como este: todo bom yogi tem de ser desapegado e sereno, que é o clichê do bom yogi. A espiritualidade não significa um desapego, e a materialidade não significa um apego. A gente está sempre nesse paradoxo. O contrário poderia parecer um absurdo, uma pessoa que é cheia de raiva, tem o ímpeto, eu estou falando da raiva na sua forma mais neutra, ela se coloca, fica indignada com algumas situações. Quer dizer que essa pessoa nunca vai poder ser um bom yogi? Vai poder sim. O fato das suas características existirem não quer dizer que seu caráter se expressa através das suas características.

 

Sete passos da felicidade: o nosso caráter não se expressa através das nossas características. Esse é o segundo passo da felicidade. Qual é o primeiro? Compromisso. Mas as características não dizem nada. É isso que lava a alma no Kundalini Yoga, é por isso que vocês fazem parte dessa tradição. E essa tradição não é para qualquer pateta que queira usá-la como um clichê. Não faz sentido. Porque as características não formam o seu caráter. A menos que você queira se expressar através das suas características. E é por isso que a gente sua demais para criar um modelo que ensine isso para as nossas crianças, onde no mundo elas vão ter de modular tensão e relaxamento, não é só relaxamento, nem só tensão, como os jesuítas fizeram. É tensão e relaxamento, e entre tensão e relaxamento você expressa a sua identidade, não necessariamente através das suas características. Nós provavelmente vamos morrer com as nossas características, cada um de nós deve saber qual é a sua característica primal. A minha é a impaciência e a paciência. É um paradoxo, mas é a minha. Quando eu estou no fluxo, eu sou extremamente paciente, quando eu não estou, eu sou extremamente impaciente. Cada um de vocês tem a sua característica e a história é vocês conseguirem expressar o paradoxo dela, que é o paradoxo dela que faz você estar completamente na sua irrelevância. E o outro passa a ser relevante.

 

E atenção pessoal, você pode confrontar e elevar, mas com muito humor. No final, a menina falou que tinha se sentido muito mal com o gongo. Eu comentei com ela que tudo na nossa vida diante do desconhecido é a nossa pré-disposição. Se você está querendo experimentar, você é capaz de passar pela experiência sentindo mal, para depois ver aonde isso vai te levar. Você poderia ter concluído que isso não te levou a lugar algum, então foi ruim para você do começo ao fim, mas você poderia ter concluído que foi ruim no início, mas depois te levou num lugar bom, como foi para a maioria. Mas você já entrou aqui predisposta a não estar aqui. Eu só não compreendo por que você estava aqui, já que aqui não tinha chamada nem nota nem nada. Então da próxima vez seja original a tal ponto de não estar num lugar onde você não quer estar. Vocês precisam falar o que que é realmente, de modo a fazer sentido. Para isso, vocês precisam captar o negócio, saber o que é negócio, para você devolver o negócio para o negociante. Se essa menina tem o mínimo de impulso para pensar, ela vai refletir. Mas se o negócio dela é estar no mundo se achando que é muito relevante, se ela não se achar irrelevante em momento algum, ela nunca vai entender. Mas se ela só se acha relevante e sem ela nada move, ela é a defensora dos fracos e oprimidos, então ela vai ficar assim, mas se ela por um momento falar que não tem a menor importância , ela vai aprender. Tal negatividade demorou quase doze horas para sair de mim, e olha que eu estava muito atenta a essa negatividade. Então negatividade é um trem que entra e você precisa estar ativo para limpar.

 

Aluna: Eu estava lá e quanto mais você explicava para ela, mais ela tinha um sentimento de raiva. E ela não sabia por que estava passando mal, e que continuava passando mal e queria saber como ela saía daquele mal.

 

[GSK]: Ela não perguntou como saía do mal. Se ela tivesse perguntado...

 

Aluna: Não. Ela só falou que estava mal, continuava mal e não sabia se sairia da dor, do desconforto.

 

[GSK]: Ela não perguntou como sairia, ela só se declarou mal, que estava no desconforto, típica histeria. Então foi muito bom ter dito para ela que aquilo era um chelique. Mas se ela tivesse me pedido uma técnica para sair do chelique, eu tinha convidado ela para ir para o tronco. Era um evento só para alunos e tinha um cara da Bahia que era de Egum, ele era do terreiro, no final ele disse que tinha gostado demais desse negócio, ainda mais a gente vestido daquele jeito, e falou que a gente deveria ser muito discriminado. Eu respondi que não éramos não, que eu trabalhei muitos anos na UFMG - eu tinha sido apresentada como professora da UFMG e blá...blá...blá... - e já usava turbante, e que os afro-brasileiros adoravam, mandavam axé para mim, e que os brancos tinham inveja porque esse turbante é lindo, né! E aí pronto, foi assim que eu encerrei a conversa, que os brancos acham lindo e os negros acham... lindo! E o Sat Sunder, a cada 30 segundos, falava que estava na hora de ir embora. E eu dizendo se tinha mais perguntas, ele querendo sumir com o gongo.

 

Aluna: E o interessante é que no sábado o Sat Sunder na praça da Assembleia e foi maravilhoso. Uma repercussão incrível, as pessoas ficaram conversando com ele muito tempo depois. O Sat Sunder tem uma frequência que é de introspecção e devoção, então não é de ficar conversando muito.

 

[GSK]: Eu recebi notícias e uma foto, realmente foi maravilhoso. A história, gente, é a universidade. A universidade, onde se espera a universalidade, é onde as pessoas são mais aprisionadas, as pessoas são presas. Elas estão cada vez mais presas, por isso que nada ali progride muito rápido, é tudo muito lento. Os processos são muito lentos, é a prisão do intelecto. A gente precisa de um novo modelo de universidade , mas esse modelo aí ainda estará vigente por um bom tempo, porque a gente tem de começar do ensino básico até que esses alunos que estamos formando por aí não admitam mais e queiram algo diferente. E é sempre paradoxal, sempre paradoxal, então é isso aí.

 

Nós estamos vivendo num mundo onde as pessaos são cheias de verdades, cheias de relevância. No meu grupo familiar, alguém mandou uma foto de Uberlândia dizendo que sempre achou que era uma cidade de gente porreta e pedindo para ver como era a educação em Uberlândia. Na hora que eu cliquei, era a informação que lá tinha o maior número de escolas ocupadas atualmente. Eu respondi que era contra a ocupação de escola e que a gente deveria se manifestar nas ruas e nos políticos que a gente vota. Aí uma pessoa me devolveu com um comentário como se eu não entendesse nada de política, de liberdade e de exercício de cidadania. Então as pessoas estão presas, e não estão prontas para ouvir uma voz que seja diferente daquela que elas não estão querendo ouvir.

 

Nós estamos num momento muito particular e precisamos passar por ele com uma grande sabedoria. Não existe uma outra forma de entender nossas posições que não sejam aquelas que tentam nos colocar dentro de determinados clichês. Eu particularmente acho que a gente não sabe ainda fazer a política feminina, que é a que a gente vai tratar ano que vem no treinamento Khalsa, a política feminina é a política onde você vai para conversar. Eu quero muito que a gente chegue num ponto em que um grupo de mulheres traga um político aqui. Nós estamos ainda longe disso. Mas não é por isso que vocês têm que cortar relações, a gente está caminhando. A UFMG é ocupada por uma dimensão da ciência que é condicionada ideologicamente. Em 1988, quando eu me coloquei contra a fluoretação das águas de Belo Horizonte, fui considerada uma dissidente, mas nem por isso eu deixei de me colocar contra a fluoretação das águas de Belo Horizonte. Existe uma agressão e um julgamento que a gente vai sofrer, mas nem por isso a gente deixa de ser coerente com aquilo que a gente acredita. Porque quando as pessoas estão muito aprisionadas numa forma de pensar é muito difícil de elas verem além daquela forma. Lá em 1988 a esquerda inteira era a favor de pôr flúor na água e quem fosse contra era considerado de direita, a coisa não mudou muito hoje. Hoje quando a gente fala veganismo na esquerda, isso é uma firula da classe média. Eles ainda não entenderam que é em respeito aos animais. Então nós somos pioneiros no nosso estilo de vida e devemos carregar nosso estilo de vida pioneiramente sem contaminar a nossa perspectiva política e histórica.

 

Nós queremos sim uma mudança de qualidade neste mundo, a gente quer sim uma forma de existir igual para todos. Enfim a gente quer isso, mas isso não significa que a gente precisa falar exatamente como todo mundo fala. É essa diversidade, mas a gente só consegue experimentar como iogues e professores a dualidade em nós e quebra todo tipo de clichê. E pode ser que a gente morra sem ser compreendido, mas e daí? Por que a compreensão do outro tem de qualificar a minha morte? Mas a gente pode deixar uma experiência e um legado. Eu acho que isso é o importante e que a gente está construindo num projeto de escola como Miri Piri, em que a gente está dedicando um tempo de arte à criança nos anos formativos, e na arte ela vai poder experimentar processar o mundo pelas suas emoções, mas não responder ao mundo através das suas emoções. Isso é que é importante! Wahe Guru!

 

May the long time sun shine upon you...

 

[Transcrição: Sada Ram Kaur]

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