[GSK] Respirando debaixo d'água

29 Oct 2014

por Gurusangat Kaur Khalsa

 

Pessoas que se movem de aparente sucesso em aparente sucesso raramente entendem a natureza do sucesso. Aqueles que erram ao tentar fazer o certo são os que mais perto estão de entender a superação e de cultivarem a compaixão para si e para o mundo.

 

A vitória que nos deixa triunfante e superior nos condena à rigidez típica daqueles que querem perpetuar o controle a fim de esconder fraquezas e fragilidades. Mal sabem que a rendição oferece o gosto doce da paz.

 

Deus se disfarça em nossos erros, conflitos, contradições morais, inconsistências e confusão. A boa notícia é que há erros e conflitos de sobra em nossas vidas. Mas, sinceramente, poucos são aqueles que sabem fazer deles a matéria-prima de sua superação. Haveria uma explicação para este desacerto?

 

Há sim: nosso ego. O ego sempre insiste em bases morais elevadas para os outros a fim de preservar sua própria zona de conforto — “faça o que eu digo, mas não faça o que eu faço” —, perpetuando a falsa imagem de retidão e desviando o olhar de suas próprias falhas. O julgamento moral é o recurso daqueles que tentam esconder suas derrotas e erros.

 

Por que será que nem o conhecimento e nem a religião conseguiram extinguir a amargura e o sofrimento na vida daqueles que adotaram a violência como meio de superação? E que força então poderia restaurar nossa sanidade?


A resposta que me vem à mente parece simples demais, mas não encontro outra melhor. De modo geral, o conhecimento não impediu que a religião fosse vivida por pessoas que temem o inferno e somente a experiência daqueles do Dharma que passaram pelo inferno poderia ser usada para restaurar nossa inocência e sanidade. É uma ideia radical, eu gosto dela.

 

Se a religião não respondeu aos desafios do ego humano, de onde viria então a força que nos traria à vida da compaixão e da generosidade ensinadas no Dharma? Se o ego prefere a ruína à mudança, o que, por todos os santos, poderia nos ajudar a recuperar a dimensão divina da vida humana, a espécie mais evoluída no planeta?

 

A resposta precisa vir do fracasso para que meu texto faça sentido, e... ela vem!

 

Todos que já passaram por isso sabem que a rendição é doce! Só a luminosidade de quem conhece a morte pode fazer crescer a compaixão por tudo. Como a morte implica, necessariamente, a libertação do espirito contido no corpo que se desintegra, então, quando se morre em vida, quando se aceita a derrota, a força que nos possibilita continuar vivos é aquela que vem do espírito!

 

Ketia dukh bukh sad maar – e bhi daat teree daataar.
"Se a dor e o infortúnio me alcançam mil vezes – ainda assim, tudo isso é Seu presente".

 

“Não se preocupe se existe escuridão na vida, crie luz”. Essa não era uma mera frase do Yogi Bhajan, mas, sim, uma pista para que encontrássemos em nossa própria derrota, desespero, erro, miséria, a força da luz que insistentemente acompanha os derrotados e os desafortunados. Em suas aulas de Kundalini Yoga, quando trazia todos os Ensinamentos do Dharma Sikh para ilustrar a beleza desta contradição e seu valor para nossa superação, ele ensinou com a força de sua vida que o yoga é a união entre nós e Deus, dentro de Deus e dentro de nós. E ele ensinou ainda que, o teste desta união acontece quando o tempo te bate e o espaço te conserta. Se naquele momento sua resposta for bondade do coração e compaixão da cabeça, então não haverá nenhum outro grande santo do que você; não haverá nenhum outro Deus, senão você. Nenhuma outra verdade a não ser você.

 

Wahe Guru.

Belo Horizonte, 29 de outubro de 2014.

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