[GSK] Reflexões de uma Khalsa

21 Feb 2014

por Gurusangat Kaur Khalsa

 

Às vezes não acredito, mas se prova verdade logo que eu me lembro que está garantido. Estou falando da mão invisível e protetora de Guru Ram Das, e hoje tivemos mais uma vez a prova dela.

 

A primeira expedição à Índia, na companhia do Siri Singh Sahib Yogi Bhajan, aconteceu em 1972. Mais de 80 alunos o acompanharam naquele Yatra (viagem sagrada) à Casa do Guru Ram Das, o Golden Temple. Não sei se você que me lê pode imaginar o que isso na época representou. Vou tentar tecer uma imagem: hippies, cabelos longos, magros, brancos de olhos claros, a maioria com um amontoado de panos cobrindo a cabeça dando a entender que se tratava de um turbante, ao lado de um homem de dois metros de altura, impecavelmente bem vestido em sua túnica branca, seu turbante bem colocado, meticulosamente combinando suas joias sobre um tamanco holandês branco, que os conduzia orgulhosamente através do parkarma (pátio ao redor do lago, cujo centro recebe o tempo dourado).

 

A imagem continua... os milhares de indianos, de todas as religiões, que circulam diariamente no Golden Temple não se contêm e olham descaradamente, pegam, riem, trocam olhares, caretas, as sobrancelhas de uns se levantam em espanto, a boca cai, outros ficam sorrindo sem graça e admirados ao mesmo tempo! Quem serão estas pessoas tão estranhas ao lado deste Sahib?

 

Pela primeira vez em suas vidas, estas pessoas foram levadas a experimentar um estado de puro êxtase sem o uso de LCD ou maconha. Eles entraram e pisaram no chão onde o Shabd Guru pode ser sentido, quase tocado. Eles se banharam nas águas cristalinas e puras do Sarovar, eles se prostraram diante do Guru, eles foram meditar ao lado dos minaretes no telhado do templo. Eles se extasiaram com a frequência daquele lugar, e tudo parecia simplesmente fluir divinamente, digamos, quando os problemas começaram.

 

Em pé, falando para a sangat em um dos gurdwaras dentro do Golden Temple, Yogi Bhajan começou a explicar para o indianos o valor sublime daqueles jovens mal-ajambrados. Ele dizia que muito diferente deles indianos, aqueles “ungresis” (termo usado pelos indianos para nós estrangeiros) eram disciplinados, se assentavam e meditavam no amrit vela, faziam yoga, praticavam o bem, serviam e vivam o Dharma de uma maneira viva, enquanto os indianos se escondiam atrás de aparências, corrompidos pelo desejo de possuir e perdidos numa hipocrisia religiosa que criava uma separação entre o momento do tempo e a vida em si.

 

Na medida em que ele discursava a tensão só aumentava. Dava para sentir a atmosfera pesada e a multidão dentro do Gurdwara se irritando. Eles trocavam olhares entre si, ouvia-se murmúrios indignados, até que um deles irrompeu por entre a multidão e, com uma espada na mão, partiu para cima do Yogi Bhajan. Ele já sabia e antevira tudo e sabia o que o esperava. Imediatamente, Shanti Kaur partiu para protegê-lo, junto com outros da equipe de segurança, tomando a espada do agressor e levando todos para fora daquele espaço, onde foram colocados numa sala reservada dentro do Golden Temple e lá se trancaram.

 

Do lado de fora, a multidão furiosa nao arredava o pé e mandara avisar que eles não sairiam dali impunemente.

 

O Yogi disse aos seus alunos que o momento era difícil, que havia confrontado a hipocrisia religiosa de muitos e que eles estavam sob perigo, mas que o Guru Ram Das haveria de achar uma solução. Assim dito, ele se retirou para um cochilo, sob olhos incrédulos da maioria – “como ele pode dormir numa situação desta!". Passado algum tempo, ele abre os olhos e diz: “Guru Ram Das apareceu para mim pessoalmente e me disse para entoarmos este mantra: Guru Guru Wahe Guru, Guru Ram Das Guru". E todos se assentaram e entoaram a noite toda. No Amrit Vela, houve um grande silêncio do lado de fora. Eles espiaram e viram que havia nenhuma pessoa sequer vigiando a porta. Todos tinham ido para o outro lado do Templo, acompanhar a carruagem do Guru, a qual o traria de seus aposentos para o centro da corte. Eles abriram a porta e saíram em absoluta segurança, atravessaram o portal do templo e foram para casa.

 

Talvez você esteja pensando que aquelas pessoas não teriam feito nada com os ungresis e que tudo não passara de uma ameaça. Yogi Bhajan não acreditava nisto. Aqueles eram anos duros, quando a Índia e seus cidadãos viviam na barbárie das guerras. O Paquistão estava em guerra com a Índia, a guerra fria entre EUA e URSS estimulava ainda mais a rivalidade e a violência na região. O que aconteceu naquela noite foi de fato limítrofe e nos ensinou desde então uma coisa:
 

> Que ninguém deve deixar de proteger e enaltecer os santos, por mais que as aparências digam o contrário.


> Que ninguém deve alimentar o preconceito em si ou do outro.
 

> Que ninguém deve se retirar sem proteger sua palavra e sua identidade.
 

> E que tudo isso pode causar confrontos e, consequentemente, problemas, e que quando eles surgirem não devemos nos esquecer do mantraque espalha e irradia amor – Guru Guru Wahe Guru, Guru Ram Das Guru.
 

Este é o mantra pessoal de proteção para todos que, em suas vidas se sintam ameaçados e acurralados. Ele nunca falha!

 

Wahe Guru, Sat Nam.

Belo Horizonte, 21 de Fevereiro de 2014.

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