[GSK] Compreendendo raiva e amor

10 Nov 2016

Aula ministrada por Gurusangat Kaur Khalsa em 7 de outubro de 2016 

 

Uma vez, um aluno do Yogi Bhajan, que criou o Akhal Security e depois doou o Akhal Security para ele, estava pensando “será que ele vai me atender?”. E o Yogi Bhajan atendeu. E ele falou “senhor, eu estou pronto. Se o senhor me visse, o senhor estaria orgulhoso de mim, eu estou numa elegância, terminei minha Sadhana, estou pronto para o trabalho". E o Yogi Bhajan escutou. E ele: “o senhor está me ouvindo?”. E o Yogi Bhajan: “você sabe o que eu mais desejo para você? É que ao atravessar a rua para ir ao trabalho, um carro passe por cima da sua cabeça e você morra ali mesmo, nasça de novo porque você só tem jeito se nascer de novo.” Ele conta essa história para gente hoje e a gente ri tanto! E ele fala tamanho era o ego dele, então o Yogi Bhajan disse que o que deseja a ele era esse atropelamento com morte instantânea! O humor dele às seis horas da manhã!

 

[GSK abre a aula]

 

O nosso tema teórico de hoje, para inspirar vocês na sua sala de aula, nos seus trabalhos de cursos e na sua vida, é uma pequena reflexão do que é mais discutido na Filosofia não dualista, pelos grandes mestres, até o Yogi Bhajan, é curioso. Existe um marco, por exemplo. Uma das coisas muito ditas é que na Filosofia e na Teosofia, não necessariamente na Teologia, mas na Teosofia, é de que o espírito humano, no sentido filosófico, é muito mais atraído para o mal do que para o bem. Isso é o que rola na Filosofia. Então, o que quer dizer isso? Se a gente trocar a palavra mal, para vocês não parecerem degoladores, estripadores, troquem a palavra mal pela palavra raiva. A raiva é muito mais motivadora, e você percorre muito mais internamente uma sequência de engajamento com a raiva do que você faz isso com amor. Isso que essa frase quer dizer: que o espírito humano é muito mais atraído pelo mal do que pelo bem. Do ponto de vista do nosso engajamento interno, parece que nós estamos mais prontos para dar passagem a uma série de entendimentos, análises e ações, baseadas na raiva do que no amor, ou seja, a gente age muito mais rápido e de forma muito mais engajada quando a gente está com raiva do que quando a gente percorre o caminho do amor. Isso é assim. Todos os metres da filosofia não dualista assim o diziam.

 

E talvez o expoente máximo desse mestres todos tenha sido o Krishnamurti, quando ele, ainda na Sociedade Teosófica, escreve junto com o David Bohm, esse físico famoso, sobre isso, completamente, tentando compreender isso na totalidade. É quando a Física entra, quando a ciência entra nos campos da Filosofia não dualista e eles começam a discutir. Vocês professores de Kundalini Yoga foram treinados para responder porquê. Nós não fomos treinados a ouvir  "ãhã...ãhã..."(concordando). A gente tem uma explicação. E existe uma explicação muito lógica do porquê a gente primeiro se engaja muito mais fortemente com a raiva do que com o amor. Vocês saberiam me explicar isso?

 

Aluna: A raiva é um dos sentimentos primais.

 

Aluna: A raiva é um recurso para sobrevivência.

 

GSK: A raiva é uma emoção primal, que tem a ver com a sobrevivência... O que mais? Vamos explorar isso...

 

Aluna: A gente vive muito mais no inconsciente do que no consciente.

 

GSK: A gente vive muito mais no subconsciente que no consciente. Não vamos trocar esses nomes porque eles são coisas diferentes, né? A gente vive muito mais na nossa caixa de gordura do que na garagem, por exemplo.

 

Aluna: E a energia que a raiva viabiliza... Talvez o fogo que vem com a raiva, isso é uma coisa muito rápida, né?, consome a gene muito rápido. Parece que é como se a gente tivesse de lidar com isso mais rapidamente para não ser consumido.

 

GSK: Essa é uma explicação que tangencia. Os elementos estão presentes. De fato a raiva é fogo. Mas ela tangencia. A questão está sendo construída melhor no que eles falaram e para isso o elemento fogo é essencial.

 

Aluna: Porque raiva é uma ameaça.

 

GSK: A quem?

 

Aluna: Ao nosso ego.

 

GSK: A raiva não é uma ameaça, ela é uma resposta à ameaça ao ego. Dizer que a raiva é uma ameça ao nosso ego tangencia também a questão, mas não responde. É verdade, mas não responde. Então a raiva é uma resposta à perda de poder. Nós já temos muitos elementos aqui para construir uma resposta. Por que o ser humano responde engajadamente à raiva melhor que ao amor?

 

Aluna: O ego não quer perder poder, se o ego não quer perder poder ele aciona essa reação para lidar com a questão em si.

 

GSK: Perfeito. E de onde o ego busca a informação necessária para ele validar a sua ação? O ego não quer perder poder, então, ele aciona uma ação imediata de autodefesa. Mas onde o ego valida a ação? Ele valida a ação nos filtros que estão no subconsciente. As intrigas mentais não estão lá porque eu tenho uma caixinha de intrigas mentais, não. Elas estão lá porque existem filtros que me fazem enxergar aquela realidade de modo a validar o meu entendimento. Esse é o papel do subconsciente. Só que o subconsciente não age sem ser estimulado por uma outra região, que é o sistema límbico, especificamente amígdala cerebral. Na amígdala cerebral, a gente tem uma memória remota de um trauma remoto, que já é um fantasma, mas está lá, que a gente não limpa porque ele é útil algumas vezes para validar nossas ações de autodefesa, baseadas em emoções primais que vão garantir que eu esteja certa e o outro esteja errado. Com base nesses fantasmas traumáticos, a gente dá vida, em vez de por alho no diabo, a gente põe enxofre. A gente fica alimentando o diabo, alimentando aquela memória traumática. A gente não a libera para o córtex. Se ela for para o córtex, a gente vai falar... "ah coitada da minha mãe, ela fez isso comigo, mas ela não tinha entendimento". Ou seja, você tem a memória, mas não alimenta o fantasma. O desejo de manter as memórias traumáticas na amígdala cerebral é que vai ser o fogo inicial, que vai acender os filtros do subconsciente que vão fazer uma leitura da realidade de modo sempre a querer que você esteja certo e que o mundo inteiro esteja errado, e dessa maneira você está fisiologicamente, quimicamente muito mais engajado com a raiva do que está com o amor. Esse é um professor de Kundalini Yoga.

 

Ele é capaz de compreender o que está escrito ali naquela escrita filosófica. A gente tem uma leitura profunda desses textos e é isso que seus alunos precisam ouvir, porque os tempos do guruzões já eram, das linguagens cifradas já eram, as pessoas precisam entender. Nós estamos muito mais disponíveis para o ódio que para o amor. É isso que está escrito na filosofia, e isso não faz sentido algum. Porque ou as pessoas vão negar, aqueles que acordaram agora dos anos setenta... para eles o mundo é maravilhoso, não existe maldade. "A gente não deve ficar com as pessoas más, a gente só deve ficar com as pessoas boas". "A gente não deve se relacionar com problemas, a gente só deve se relacionar com soluções". Esse é o mundo dicotômico dessas pessoas. E aí vem a gente do Kundalini Yoga e diz, bom e mal fazem parte da mesma coisa, não tem como escolher, a realidade chega, e vocês precisam ter nas mãos a capacidade de relatar sobre isso para vocês fazerem sentido.

 

Isso é uma das coisas às quais o Yogi Bhajan mais dedicou o seu tempo, para que nós pudéssemos compreender, para que nós não fôssemos yogis que apenas acreditássemos. Porque se a gente fica apenas no "eu acredito, eu não acredito" você fica só na superfície, você tem de ir fundo. A história é mais ou menos a seguinte. O subconsciente é um processador ultrarrápido. Em um segundo, ele capta 40 milhões de pixels, é coisa pra caramba. Num segundo, ele mapeia detalhes da realidade. E o consciente mapeia apenas 40 por segundo. É a qualidade do processador interno. Mas isso não explica a sessão. Unbewussten em alemão, que é o inconsciente, é tudo aquilo que faz parte da psique, mas que não faz parte necessariamente da minha psique. É o inconsciente coletivo. E no Kundalini Yoga o inconsciente coletivo chama-se Chitta. Quando no Guru a gente lê Mera Mane Chitta Ave... eu quero ter a minha mente na consciência de Deus e não na consciência finita. Chitta é o inconsciente. O inconsciente tem uma ação muito forte sobre nós, ele influencia o meu modo de pensar, de existir na medida em que eu crio alguns clubes, eu vibro igual a algumas pessoas abaixo desse inconsciente coletivo. Então os famosos clubes, tribos. Ela cria um código cultural em mim, um código de comportamento em mim. No dia em que eu mudo de tribo, eu mudo de influência, então estou sob outra influência. Então é o que eu chamo de inconsciente coletivo. Unterbewusstsein, subconsciente, significa no Kundalini Yoga – eu não sei exatamente como Freud explica Unterbewusstsein, mas no Kundalini Yoga  tem um nome muito fácil que vocês jamais vão esquecer que é – a caixa de gordura. É onde a gente processa a sujeira. Por isso, essa caixa de gordura tem de ser limpa, senão essa sujeira volta, aquele mal cheiro, aquele trem todo para a pia. E a pia é o quê? O consciente. Então diante de tudo isso, a gente vai fazer uma aula para a  parte inferior da coluna. É uma aula que vai liberar um tipo de prana, um tipo de calor.

 

Kriya For the Back, página 89 do livro Kriya

Meditação: Projeção do Divino em Você.

 

O Yogi Bhajan comenta esse kryia no final: “Existem três coisas para a gente fazer na vida: amar, aprender e viver. Amar não é suficiente, amor não é tudo. Se você não aprende, não adianta você amar, porque você jamais saberá amar. Você vai cometer erros e mais erros, porque suas neuroses virão atrás de neuroses. Antes de amar, aprenda e depois viva.”

 

Por que é mais difícil amar?

 

Não é abrir mão do eu, porque senão quem vai amar quem? A palavra é o compromisso. Por que o medo impede a gente de amar? O que a gente teme perder? A gente teme perder a gente. O ser humano é uma minhoca que tomou um ácido. Tudo que a gente quer é amar, e quando a gente tem a possibilidade de amar, a gente tem medo de perder a nossa identidade porque no amor a gente se perde. A gente quer se perder no amor só quando está fazendo sexo, quando não temos controle nenhum e nos perdemos mesmo. Mas depois, quando a gente recobra um outro estado, o que a gente teme é perder exatamente aquilo que a gente tem de perder, que é essa identidade fictícia. Existe o amor que brota espontaneamente, mas existe o amor que é conquistado. Você casou com um oriental, que sabe muito bem disso, porque no Oriente não tem esse amor que brota espontaneamente. Ele é conquistado e construído com o tempo e com o compromisso. Esse amor que brota naturalmente existe e tem duas qualidades, ou ele é um amor divino que brota naturalmente, quando a gente está em sintonia muito grande com a nossa alma, que a gente ama de graça, e existe o amor que brota através da química, de ver uma pessoa e o amor brota naturalmente. As qualidades e o destino desses dois tipos de amor são completamente diferentes. E no Oriente, acredita-se que o amor não seja nem uma coisa nem outra, que ele é construído com o compromisso e com a entrega. Por isso que você não tem de estar apaixonado para se casar. É mais difícil a gente ter uma resposta reflexa para o amor, ao contrário da raiva. É no amor você tem de residir fora do seu sistema líbico, particularmente fora da sua zona de traumas, nesse amor que se compromete. Porque implica muitas vezes de você abrir mão daquilo que você acha que é certo, abrir mão das suas crenças, o amor verdadeiro tem de abrir mão de crenças. E as crenças são muito enraizadas, são profundamente enraizadas no nosso subconsciente, na razão, na origem da nossa raiva. São de novo os filtros, só que tem um componente muito grande dos filtros culturais nas crenças. E tem uma frase do Yogi Bhajan que explica muito isso. Ele diz o seguinte: “quando você anda reto” (Gurusangat explica o que é caminhar reto: Você sabe que lá está seu objetivo e caminha em direção a ele, atravessa tormenta mas está lá), “Deus anda em torno. Quando você anda em torno, Deus sai para o lado.” Então quando você anda em direção ao seu compromisso, essa energia está sempre te protegendo. Quando você começa a perambular, essa energia sai.

 

A história do amor tem a ver com uma coisa muito importante que  a gente não tem, que é paciência. Então é isso: eu sei qual é meu objetivo, eu sei onde eu estou, eu sei o que estou fazendo, e eu vou continuar andando e um dia eu terei a prova do amor. E vocês às vezes têm raiva e quebram um relacionamento e decretam o fim porque sua minhoca tomou ácido em alguns meses só. Vocês não têm a força de se colocar no tempo. “Se você andar reto, Deus anda a sua volta. Se você começar a andar em volta, Deus sai de cena”. São milagres, gente! São milagres. Vocês compreendem isso? E qual é o compromisso do amor? É não deixar nenhuma dúvida no ar. Por doze anos (Gurusangat fala de uma situação específica como exemplo) eu simplesmente confiei, agora chegou a hora de esclarecer, manifestar, amar. Por o amor em prática. Esse tipo de solução de desentendimento e de conflito é dhármico, ele é que limpa karma de sangats. Mas a gente precisa estar disposta a não temer. Não temer. Qual poderia ser o meu temor? Temer o quê? Perder a minha identidade. A única maneira que a gente tem de provar a nós mesmos e ao mundo que nós somos pessoas do bem e somos pessoas do compromisso é a gente continuar se comprometendo e continuar caminhando o caminho do bem  a despeito de todo mundo apontar o dedo para gente. Entendem? Essa aula tem a ver com isso. O amor tem de ser isso. Esse impulso para amar tem de ser construído, ele não está em nós, ainda. O impulso para a raiva está em nós independente de qualquer coisa. Nós estamos prontos para agir na raiva. No amor é difícil porque pressupõe você não temer perder a sua identidade. Não é perder a minha identidade real, é a minha identidade projetada, é a tal da identidade projetada. Ou seja, a gente temer a difamação. O Yogi Bhajan dizia que quando você é difamado, mas você continua reto, muito karma é limpo. Persistam no amor e no serviço; e não tenham medo de serem difamados. E daí ser difamado? Todo mundo um dia vai morrer! A gente tem de colocar nosso olhar além do tempo histórico, olhar também para o tempo cósmico, porque isso ajuda a gente a compreender.

 

May the long time sun shine upon you...

 

[Transcrição: Sada Ram Kaur]

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