[GSK] Calabouço emocional

19 Apr 2014

por Gurusangat Kaur Khalsa

 

Eu estava em Berlin naquele janeiro de 1994 quando li uma citação do Yogi Bhajan que me serviria de guia em muitos momentos difíceis de minha vida. Ele disse: “a maioria de suas ações não são efetivas. Tudo que você faz é satisfazer suas emoções. Todo este estilo de vida e tempo que você gasta em satisfazer suas emoções serão a exata medida para sua morte. Todos têm que morrer, mas, alguns morrerão realizados, e muitos outros morrerão vazios”.

 

Suas palavras vergaram meu intelecto e me fizeram refletir. Compreendi que na sua colocação residia uma explanação profunda sobre o sofrimento e a miséria humana, especialmente a sua forma auto-imposta. Sua abordagem simples e, ao mesmo tempo, inédita colocava um ponto final depois de explicar tudo sem meias palavras, deixando no rosto de quem o lia um sorriso que expressava uma divagação mais ou menos assim: “caramba, esse cara é demais!”.

 

Mas, por qual razão ele dizia que, ao satisfazer nossas emoções, causamos uma falência em nossas ações? Como poderíamos deixar de lado nossas emoções, já que ele mesmo insistiu em ensinar sobre a importância de não negá-las? Ou ainda, sabendo que emoção é informação em movimento, e alertando para a necessidade de incorporarmos o máximo de realidade que ela envolve, como essa mesma emoção poderia ser a protagonista da nossa inoperância?

 

Uma perfeita cartografia deste paradoxo encontra-se bem descrita no Siri Guru Granth Sahib. As emoções são de fato combustível que coloca em movimento impressões, pensamentos e cria realidades dentro e a partir de nós. Entretanto, uma das características inerentes às emoções é que elas não têm nenhum compromisso com a realidade. Nós nos emocionamos não porque a realidade assim nos fez sentir, mas porque assim nós sentimos a realidade. Nós interpretamos a realidade de acordo com nossas próprias lentes. Diante de uma mesma realidade seres humanos têm emoções distintas e elas em nada se alinham a fim de darem sentido à realidade em si.

 

Nós tendemos a sentir a realidade independente do que a realidade de fato é. Nós sentimos a realidade a partir de nossos filtros pessoais, criados por força do hábito, da cultura, da dor, do medo e da alienação. De fato, esse comportamento é também fisiológico: ao colocar na boca uma fruta que seja por natureza doce após ter chupado limão, você jamais será capaz de sentir a doçura da fruta, que segundo seu paladar terá um gosto azedo e amargo. A realidade da fruta não interessa à sua interpretação, e sua interpretação é tão real para você quanto a natureza doce da fruta é para ela mesma!

 

Como aprendemos com nosso Professor, Yogi Bhajan, paradoxos não devem ser resolvidos. Não se trata, portanto, de permitir ou não as emoções. Elas são fisiológicas! O que acredito ser desejável e possível é observarmos o quanto nós nos aculturamos num tipo clássico de obsessão – a do bem-estar! Precisamos nos sentir bem o tempo todo, e sentir bem significa estarmos emocionalmente satisfeitos para que possamos garantir nossa felicidade. Os tais filtros, tão ativos em cada um de nós, têm por função única proteger nossa identidade psíquica das agruras e dores que nos fazem inseguros e frágeis. Esses filtros atuam mesmo quando não há motivo real algum, criando assim um fluxo incessante de “necessidade de estarmos bem e felizes”.

 

O que o Siri Guru Granth nos ensina é que um verdadeiro Yogi reconhece este sistema e se coloca diligentemente a limpar esses filtros que impedem a apreensão da realidade de forma mais clara. Mas, muito mais importante do que isso, o Guru nos ensina também que um Yogi aceita a realidade como ela é independente do sacrifício que seja viver nela momentaneamente. Ao fazer isso, essa pessoa se conecta com a vida a partir de uma fonte que se encontra muito além das emoções, sem, contudo, negá-las. Essa fonte se chama alma, ou consciência. Quando assim o fazemos, o desconforto aparente de uma situação não é suficiente para nos temperar no âmbito de nossos padrões de defesa.

 

Ao contrário, nossa identidade psíquica imerge na nossa identidade espiritual, e, nesse momento, o alcance de nossa percepção se alarga para enxergarmos nosso propósito e qualificarmos nossa busca. Qualquer ação que iniciarmos para realizar a visão de nossa alma é livre do nosso calabouço emocional, e por isso mesmo essa ação dá frutos!

 

Wahe Guru, Sat Nam.

 

Belo Horizonte, 19 de Abril de 2014.

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