[GSK] Aprendendo a agir como um Santo Guerreiro

17 Mar 2020

Aula ministrada por Gurusangat Kaur Khalsa em 14 de fevereiro de 2020

 

[GSK abre a aula]

 

O tema da aula de hoje é o sétimo ano de vida. A chave para o desenvolvimento psíquico do ser humano, especialmente para consolidar a formatação do subconsciente, é o sétimo ano. O subconsciente é a instancia que mais utilizamos para nossa defesa. E essa é uma defesa muito pouco segura, porque provém do ego.

 

Nos três primeiros anos de vida temos uma relação com o mundo como se fossemos uma esponja. Absorvemos tudo. Não temos muito como selecionar, e a mediação de risco, perigo ou fragilidade é toda dada pelos nossos pais. De alguma maneira, eles podem ajudar muito se apoiados por uma escola que auxilie em permitir à criança arriscar e experimentar, evitando uma proteção excessiva. Toda criança precisa explorar e ter também suas quedas e frustrações.

 

Mas isso não é o mais típico, pois a maioria dos pais não dá conta de agir assim. Rapidamente começam com uma interpenetração de jogos, porque se sentem pouco preparados, têm culpa e cobram de si mesmos algo que não têm. Então começa, nesse instante, uma compensação. Pais não se sentirem preparados ou se sentirem, em algum momento, culpados é algo muito natural. E uma forma de compensar esses sentimentos é amar demais, não permitindo que a criança tenha qualquer experiência de independência. Transferir a qualidade do amor para a qualidade da proteção em excesso é ruim para a criança.

 

A criança vai passando por isso e vai adquirindo tal programa mental. Ela ainda está numa inocência muito grande. Não consegue relacionar causa e efeito, nem olhar para o seu meio e questioná-lo. Não tem estrutura neurológica ou psíquica para fazer comparação e análise. Isso só ocorre aos sete anos. Em torno dessa idade é que ela começa a desenvolver um sentido de eu, e sua identidade se desloca do pai e da mãe. Nesse momento ela passa a compreender que “esse sou eu”, “essa é minha estrutura”.

 

Nos textos do yoga, Yogi Bhajan sempre comentava da dor dos sete anos. Nessa idade temos uma profunda queda na realidade – na realidade familiar e na nossa. Como ainda não conseguimos colocar isso em palavras é importante que tenha alguém ali para analisar, caso contrário somos levados a processar aqueles sentimentos sozinhos, seja lá como for. É nesse ponto que começamos a criar um tipo de estrutura que nos permita sobreviver. Já temos a programação mental e agora arranjamos uma estratégia. É uma articulação de estruturas que nos possibilita passar por aquilo ali a partir de então. E não é incomum que a estratégia seja uma articulação de mentiras, o que causa uma dor muito grande.

 

Portanto, hoje trabalharemos a dor. No Kundalini Yoga vimos trabalhando padrão e programação mental. Mas é bom lembrar que não se trata de uma mágica. Nada disso adianta se não aplicamos a inteligência. Se limpamos a caixa de gordura de casa e em seguida jogamos uma banha de porco dentro da pia, em vez de a levarmos ao local que a recolhe para ser processada, de nada adianta o trabalho de limpeza. Se não aplicamos a inteligência na nossa cozinha, tampouco a aplicaremos em nós.

 

É preciso reconhecer qual é o nosso padrão e como podemos nos conter. Em algum momento teremos que abrir a porta destrancada. Se a porta destrancada daquele quarto em que estamos não abre de forma regular, que é para fora, e nós não experimentamos abrí-la para dentro, ficaremos presos dentro do quarto, mesmo com a porta destrancada. Não há milagre. Precisaremos recorrer ao tão precioso modelo do Kundalini Yoga, chamado inteligência aplicada. Esse é o papel do yogi. Para a inteligência aplicada não adianta kriya, meditação ou espaço sagrado, adianta apenas o uso do lobo frontal, no ato de decidir: “Não, isso não. Não mais”. Uma das coisas que causa a dor dos sete anos, quando não a eliminamos, é a falta de força de vontade de aplicar a inteligência.

 

Kriya: Deixar a dor dos sete anos partir

 

Não se deve fazer meditação depois dessa aula porque ela é considerada, em si, uma meditação. O Yogi Bhajan costumava dizer que o trabalho dessas camadas dos sete anos que atingimos, por causa do gongo, fica reverberando durante um tempo. Ele pedia para que, tendo contemplado nosso sétimo ano de vida, procurássemos um presente desse período. Algo que lá atrás não tínhamos consciência, mas que carregamos conosco e que se transformou em um hábito, um comportamento ou uma característica muito boa nossa. Pedia, ainda, que tentássemos observar algo muito ruim que trouxemos de lá para cá. Ele afirmava que, quando localizamos bem, a coisa boa se torna exatamente aquilo que precisamos para curar a coisa ruim. Ainda que sejam coisas pequenas ou que não valorizamos, como o humor, poder brincar. Tudo que é do universo dos anos iniciais. É importante vermos como ainda hoje em nossas vidas esses dois elementos – o muito ruim e o muito bom – estão operando e sabermos que podemos limpar isso.

 

Yogi Bhajan dizia que tudo aquilo em que não acreditamos ou desconhecemos – e que, portanto, está na nossa zona de desafios – é introjetado como um elemento do medo. E tudo aquilo em que acreditamos significa elevação para nós. Numa psique de sete anos isso é muito fácil de ser absorvido. Esse tipo de jogo da psique continua nos anos adultos e se transforma em valores universais: se acreditamos, todo mundo deveria acreditar, se desconfiamos, todos deveriam temer ou rejeitar.

 

O que, no Kundalini Yoga, toma emprestado do Dharma um entendimento para isso? Como é que podemos olhar para isso e nos entregar diante dessa situação? A partir do arquétipo do santo guerreiro e da santa guerreira. Nesse arquétipo, em contraposição ao da vítima, o sensor, aquilo que motiva o crescimento, é a experiência. Somente depois de passar pela experiência é que podemos concluir se aquilo foi bom ou ruim para nós. Não refutamos a experiência com base em dogmas.

 

O sensor da vítima está no cérebro. São aquelas duas bolotinhas que guardam a memória de dor e trauma: as amígdalas. O sensor da pessoa que busca a experiência – que busca não conter-se, mas fluir na experiência – é a pineal. A pineal é o assento da alma, como já dizia Descartes. Imaginem que somos todos alminhas prontas para encarnar, olhando para esse planeta e pensando: “Encarnar naquele planeta, naquele projeto de família?”... A alma sabe tudo. E se ela não tivesse um sensor que a levasse a fluir na experiência, ela não desceria. Se ela fizesse qualquer julgamento do que está vendo ou sentindo, ela não desceria.

 

A despeito da alma poder ver e sentir tudo ela ainda deixa um espaço muito grande da fé da entrega para experimentar. É um ato de coragem. Esse sensor é a pineal, com sua famosa substância chamada DMT. Ela que nos leva além dos nossos próprios dogmas. A aula de hoje é tão chave porque descortina um modo de pensar muito infantil dos sete anos de idade, que insiste em continuar dando as cartas na vida adulta. Nós devemos abraçar a experiência e só depois concluir. Não é que tenhamos que embarcar em tudo. Nem tudo é para nós.

 

May the long time sun shine upon you....”

 

[Transcrição: Devaroop Kaur]

[Edição: Nav Amrita Kaur]

 

Tags: aulas gurusangat  relação compaixão dez corpos  entrega vichar  

 

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