[GSK]  A sustentação do espírito em tempos nebulosos

7 Aug 2019

Aula ministrada por Gurusangat Kaur Khalsa no dia 28 de junho de 2019

 

[GSK abre a aula]

 

A aula de hoje é do mesmo material do Yogi Bhajan que nunca foi publicado. É uma aula de 1983 que ele nomeou “Para a sustentação do espírito”. Existem outras aulas com esse nome no Sadhana Guidelines e no Manual de Nível I, mas essa é completamente diferente. Espírito, aqui, pode ser traduzido como força de vontade. Não como alma, mas sim como uma força interna.

 

A ideia dessa aula é que todas as vezes que o espírito está presente nós seremos testados. O teste da força interna é justamente diante de obstáculos. Se nos obstáculos que enfrentamos essa força é direcionada para o triângulo inferior ela sofre uma enorme retração, porque o triângulo inferior é defesa. Na psique, começamos a investigar a situação que nos confronta considerando se ela nos é favorável ou desfavorável.

 

Se me é favorável, como posso tirar vantagem disso? Se me é desfavorável, como posso eliminar isso? É sempre o eu ensimesmado. Portanto, como é que nos doamos diante dessa situação? Se a força do espírito é levada para o triângulo superior, o que prevalece é que não importa se a situação nos é favorável ou não, mas como todos os outros estão.

 

Estávamos falando das loucuras desse governo. Vivemos um contrassenso de tudo aquilo que trabalhamos arduamente para sustentar nos últimos 20 ou 25 anos. Olhando para isso, se a força do espírito for para o triângulo inferior, haverá dois caminhos possíveis. Um de desânimo, de uma depressão completa, de um desencanto. Nesse caso ficaremos esperando a coisa passar. Outro caminho é o de exaltar o ânimo interno – “isso é horrível para mim e para meus valores” – e gerar um rechaço das condições que estão aí. Mas se essa força for para o triângulo superior, poderemos considerar: “isso é horrível para mim e para muitos, portanto, nessa estrutura,  onde posso erguer a esperança?”.

 

O triângulo superior com a força interna trabalha sempre na esperança. Nunca trabalha com a ideia da morte ou do fim das coisas, mas com as possibilidades através de todos os bloqueios. É o sutra aquariano. No bloqueio existe uma possibilidade. Esse é o sentido da força interna que vamos trabalhar hoje. Não precisamos tentar retirar da euforia quem está se sentindo bem. Precisamos retirar da depressão quem está mal. Se nós mesmos estivermos na depressão, não conseguiremos estender a mão para nada nem ninguém.

 

A história é, mais uma vez, não nos relacionarmos com o que as pessoas sentem e querem – é legítimo, em cada ser humano, querer e sentir o que quiser. Nossa relação não é pessoal, é impessoal, pois nos relacionamos com valores. Essa é a marca fundamental, o ponto diferencial. Para um professor de Kundalini Yoga o valor é sempre a vida. Não uma sobrevida. Não é apenas estar de pé comendo, evacuando, urinando e dormindo. É a vida em um grau mínimo de excelência e dignidade.

 

Na semana passada saiu na Folha de São Paulo e em alguns jornais de circulação nacional matérias sobre o grau de ansiedade em adolescentes. Já estamos falando disso há pelo menos uma década, mas agora está nos jornais porque ficou muito visível. Esse é um tipo de país que pode sobreviver mesmo se seus adolescentes e jovens não têm esperança.

 

Um dos guias para agir com a força de espírito no triângulo superior é a esperança. E dar esperança. O outro é sustentar nos valores. O papel do professor de Kundalini Yoga é não deixar que as pessoas morram. Essas mortes góticas, na desesperança. Temos que trabalhar a despeito de qualquer coisa. Temos que ser capazes de levantar o espírito das pessoas. Podemos estar muito mal, mas tem gente que está muito pior do que nós.

 

O que fazer e como fazer vêm do processo de discernimento, da intuição, dessa inteligência. Se seguirmos o que devemos fazer de acordo com o pasquim social, certamente nos daremos mal. É nas ações fora da curva, tanto de um lado quanto do outro, que fazemos toda a diferença. Temos que ser bastante criativos para fazer a diferença. Coletivamente fica mais fácil sustentar a força de espírito. Não existe inteligência individual. Se juntos conseguirmos criar estratégias de trabalho ajudaremos demais, porque uma pessoa que não esteja diretamente envolvida com este trabalho se sentirá parte e membro nesta ação.

 

Kriya: Para sustentação do espírito

Meditação com o mantra Ardas Bhaee
 

“Abençoada seja a força que cria. Abençoado seja Deus. Nos dê o melhor da vida. O melhor da saúde. Nos dê prioridade sobre propriedade. E nos dê prioridade sobre pontualidade na vida. Que nós possamos trabalhar o nosso karma e entender em profundidade o nosso dharma. Nos dê a palavra do Guru. Nos dê alegria, tranquilidade. Nos dê paz. Nos dê o poder de servir e de elevar aqueles que precisam ser elevados. Que nós sejamos saudáveis, felizes e sagrados.” – Yogi Bhajan

 

Os tempos de transições são sempre complexos. Se temos uma psique muito imatura e insegurança ficamos sempre buscando uma caixinha para encaixar as coisas. Mas as coisas não têm que encaixar, e normalmente não encaixam, em tempos de transição. Elas estão em grande efervescência. Não significa que tudo é certo. E não significa que tudo é errado. As coisas são como são.

 

Vou dar um exemplo. A identidade binária consiste em se sentir algumas vezes como mulher e algumas vezes como homem. Isso está errado? Não, não está. Isso está certo? Não, não está. Isso é simplesmente como é. Não é uma questão de certo ou errado. É uma maneira como o ser humano atravessa os tempos, tentando se encontrar. Yogi Bhajan dizia que quando somos colocados diante de desafios e somos comprimidos, podemos escolher várias identidades para nos safar. Ele considera pelo menos 22 personalidades, que são as tais máscaras que utilizamos para nos safar quando não sentimos segurança suficiente em nós para enfrentar, como somos, uma determinada situação.

 

Não queremos ser pegos, não queremos ser identificados, queremos estar sempre bem. O problema de viver em uma identidade binária é o mesmo problema de não viver em uma identidade não binária. É uma questão de escolha. Na identidade binária, qual é o processo de fuga? Posso estar me sentindo como uma mulher agora e quando sou confrontada posso escolher fugir do confronto sendo um homem. O processo é como assumir quem somos e, sendo quem somos, como enfrentar todo tipo de constrição.

 

Seria um mundo muito horrível se só houvesse margaridas nos jardins. Ou tulipas. E toda margarida que nascesse tivesse que ser tulipa. Ou o contrário. Existe uma complexidade na natureza da vida. Normalmente, para as margaridas sobreviverem como margaridas, ou as tulipas como tulipas, elas precisam do grupo delas. Existe uma força do grupo. Uma genética de proteção. É natural que os grupos se identifiquem. Não tem nada de errado nisso. Quanto mais complexos e diversos formos, mais chances teremos de nos firmar no processo evolutivo.

 

A questão número um do Kundalini Yoga é como, sendo quem somos ou quem nos imaginamos e queremos ser, enfrentamos uma dificuldade, um desafio, uma constrição, sem termos que recorrer a uma máscara. Sem termos que fugir.

 

Quando atravessarmos essa constrição, talvez descubramos: realmente sou isso. Abrimos mão das nossas desculpas, daquelas identidades que escolhemos para fugir. A história de qualquer um, seja binário ou não binário, é descobrir quem é. Essa é uma conversa inteligente que podemos ter com nossos alunos. Precisamos ter uma envergadura intelectual, uma envergadura dos ensinamentos, para dialogarmos com todo mundo e fazermos sentido. Os nossos adolescentes binários vão passar por um processo de transição e serão confrontados com a identidade real. Essa é a chance que terão para escolher e seguir sua identidade real.

 

É assim que temos que lidar com as situações no Kundalini Yoga. A aula de hoje dá uma força de espírito para que possamos ter coragem de ser aquilo que precisamos ser para agir nas prioridades. A meditação é para tirar todo tipo de dúvida e negatividade e nos dar uma certa esperança.

 

Para muitos a esperança tem que vir na forma de uma garantia. Mas o esperar não pressupõe saber de nada. Esperança é uma determinação de acreditar e de doar essa vida magnífica para que haja algo melhor. Só podemos seguir um exemplo de esperança, que não é do Papa, embora ele seja ótimo. O exemplo de esperança que temos que seguir é da alma, que entra em uma furada de encarnar em uma forma humana. Ela não tem dúvida! “Seja o que for, vou embarcar nessa. Preciso pagar uma dívida aqui, tenho um contrato a cumprir e não quero nem saber! Vai dar certo!” A alma é a mente positiva com o compromisso da mente neutra: precisa cumprir as suas prioridades. É isso que temos para nos inspirar em tempos nebulosos.

 

"May the long time sun shine upon you..."

 

[Transcrição: Tarkash Kaur]

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