[GSK]  A coragem para atravessar a purificação

29 Nov 2018

Aula ministrada por Gurusangat Kaur Khalsa no dia 19 de outubro de 2018

 

[GSK abre a aula]

 

Hoje vamos trabalhar o metabolismo. Na medicina ayurvedica, não existe diferença entre o intestino e o cérebro. Demorou um pouco para chegarmos lá, mas chegamos. Hoje, na medicina ocidental, sabe-se que o intestino funciona como o cérebro em muitas situações. Quanto ao cérebro, sempre soubemos que ele funciona como o intestino. Não podemos esquecer da palavra “enfezado”. É uma relação muito íntima. O fato de eu querer incluir o metabolismo como um conjunto do tema desse semestre, que é o da consciência, tem a ver com o tipo de calor que se produz ao praticarmos kriyas que trabalham o metabolismo.

 

Yogi Bhajan insiste em uma linha pedagógica que afirma que não existe depuração sem constrições, estrangulamentos, apertamentos. Todas as vezes que passamos por uma depuração, passamos necessariamente por uma fase nada confortável. Imaginem que vão constantemente ao doutor Ruguê fazer panchakarma. Panchakarma é uma depuração e uma reconstituição de nossa natureza essencial, mas que não pode ser realizada sem uma constrição, sem um desafio.

 

O tema que Yogi Bhajan insiste é que existe dentro de nós uma força muito grande que podemos acionar para atravessar essas fases de depuração, ou repurificação. Essa força é ativada por um tipo de calor que, no kundalini yoga, chamamos de tapas. É um tipo de calor que elimina karma. É assim que o conhecemos na linha folclórica do yoga. Mas a linha pedagógica do Yogi Bhajan sempre foi a de explicar um pouquinho além do folclore. Ele dizia que tapas elimina karma, no sentido de que nos prepara para a purificação, que é uma forma de eliminação de karma. E que o preparo para a purificação, se for feito às custas da energia do outro, não nos purifica.

 

Não se pode ir para essa fase metabólica do espírito – do corpo físico e da mente –, que é chamada de purificação, sem que se esquente e se modele de forma a poder atravessar pequenos orifícios. A história é atravessar pequenos orifícios quando estamos numa fase de purificação. Ninguém pode negar que estamos numa fase de purificação, coletivamente. Se ficarmos incomodados com o processo da purificação em si, o que vai acontecer conosco? Precisamos manter um grau mínimo de quietude e de bom senso para podermos enxergar os nossos pequenos orifícios. Isso se aplica à vida pessoal e à vida coletiva. Isso se aplica à vida metabólica. Isso se aplica ao nascimento e à morte. Por que isso não se aplicaria à vida?

 

Nessa linha pedagógica Yogi Bhajan diz que quando passamos pela constrição, pelo aperto, por esse constrangimento de nossa zona de conforto, e ativa tapas, acontece em nós um brilho. Esse brilho é o brilho da consciência, que nos permite, em situações muito diversas e caóticas, conter o impulso da nossa mente que quer sempre achar uma solução fácil, ou achar um culpado.

 

Esse é o grande desafio: deixar de procurar uma solução fácil e um culpado. Neste caso, temos um pouco de tempo interno e um brilho de nossa inteligência para poder nos mapear, mapear o meio, e encontrar as soluções. Muitas vezes essas soluções encontradas não têm uma explicação.

 

Já contei essa história em curso de formação. Eu havia pagado tufos de dinheiro pro departamento de Ciência da Computação da UFMG colocar meus dados de pesquisa num programa que fosse lido em qualquer computador do mundo. O brasileiro tem uma capacidade de inventar o futuro que é impressionante! O povo da Ciência da Computação dizia: “Nós temos a solução”. Me deram um disco mole com um programa e meus dados garantindo que ele seria lido em qualquer lugar no mundo. Eu pensei: “Graças a Deus!”. O dinheiro que eu investi nisso! Na época foram três salários da universidade, pra terem uma ideia. Foi bem investido!

 

Chegando em Berlim meu orientador falou: “Duvido que esse negócio aí funciona!”. Respondi: “Tenho certeza que funciona!”. Eu estava toda encorajada! Quando ele colocou o disco mole só aparecia letrinha, era uma sopa de bobagens. Ele disse: “É claro que isso não funciona!”. Vocês estão entendendo o constrangimento?

 

A falta de dinheiro, o constrangimento, a loucura. “E agora? O que eu vou fazer com o departamento da UFMG?” O cara simplesmente me falou: “Sabe que se isso aqui não for lido, você pode ir embora?” Entenderam a situação? Se naquele momento eu me perco de mim, do momento, da situação, da dificuldade...

 

Eu fiquei ali e perguntei: “O que você propõe?”. Ele disse: “O que eu proponho você não tem a menor condição de fazer.” Pegou o computador e transliterou a primeira linha do meu banco de dados para o sistema MS DOS, o sistema da época. Bem antigo. Só era usado por programador. Eu tinha 21 variáveis no trabalho. Ele pegou a primeira linha, meu primeiro paciente e lançou no sistema. E, enquanto fazia isso, não me explicava “faça isso, soma o ‘a’ com o ‘b’ que vai dar isso”. Não, ele apenas fazia.

 

Fui pra minha sala, chorei e considerei: “Vou embora. Não tem condição.” Então limpei as lágrimas e me lembrei de que havia estudado piano por 12 anos sem saber teoria. Eu tocava de ouvido! Pensei: “Eu sei reproduzir música!”. Fiquei uma semana reproduzindo o que ele fez e depois de uma semana eu descobri.

 

Vocês entendem? Fugir da realidade ou querer dar para ela uma roupagem que seria confortável para mim é a antítese de um yogi. Essa aula nos ajuda a construir essa experiência de desconforto que nos leva para uma solução. O fim da história é que eu demorei um mês para ajustar meu banco de dados todo no sistema MS DOS e esse cara pirou!

 

Kriya para o metabolismo, do manual Transformação

 

Guru Nanak nasceu e existiu para esse momento, para essa transição de eras. Ele dizia: “Tudo vem da mulher!”. É a mulher que pode atravessar situações descabidas mantendo a graça, a honra.

 

Desde que comecei a dar aula de kundalini yoga nós temos nos preparado sem saber exatamente para o quê e porquê. Lembro-me de um dos primeiros solstícios que fomos. Nós recebemos uma mensagem de um ancião da tribo Hopi que foi compartilhada com vocês no blog. Naquela época achávamos aquela mensagem apenas algo bonito e poético. Mas me deu vontade de lê-la novamente para vocês porque ela é pra agora.

 

ORAÇÃO DOS ÍNDIOS HOPI

"Nós Somos Aqueles Que Estávamos Esperando"

“Vocês têm dito por aí que esta é a décima primeira hora,

agora você precisa voltar e dizer para todos que esta é a hora.

E existem coisas a serem consideradas...

Onde você vive? O que você faz? Quais são os seus relacionamentos?

Você está na relação certa? Onde está a sua água?

Conheça seu jardim. Está na hora de falar a sua verdade.

Crie a sua própria comunidade. Você vai precisar dela.

Sejam bons uns para com os outros.

E não olhem fora de si em busca de um líder.

(Então, ele bateu suas mãos, sorriu e disse:

Esse é um bom momento!)

 

Existe um rio muito caudaloso e rápido correndo.

Este é um rio grande e veloz e muitos terão medo de suas águas.

Estas pessoas tentarão ficar presas às suas margens;

elas sentirão que, se entrarem em suas águas, irão sofrer e se machucar.

Conheça esse rio e seu destino.

Os anciãos dizem que nós precisamos sair das margens e entrar bem no centro dele.

Mantenha seus olhos bem abertos e as cabeças acima das águas.

 

E, eu digo, veja quem está no rio ao seu lado e celebre.

Neste momento da história, não devemos levar nada para o lado pessoal,

especialmente entre nós.

Porque, no momento em que o fizermos,

nosso crescimento espiritual e nossa jornada serão interrompidos.

Os tempos do lobo solitário acabaram. Juntem-se!

Eliminem a palavra “dificuldade” de suas atitudes e do seu vocabulário.

Tudo o que precisamos fazer agora deve ser feito de maneira sagrada e em celebração.

 

Nós somos aqueles que nós mesmos estávamos esperando.”

 

Esse é o nosso momento. Momento de atravessarmos. É o momento, agora, de colocarmos em prática tudo que sabemos. Pela paz. Esse é o momento do feminino. Do Adi Shakti. É um momento importantíssimo!

 

Estava nos Estados Unidos há pouco e recebi um homem de 80 anos do Sikh Dharma. Ele veio conversar comigo e me entregar um presente. Não pude trazer esse presente porque era grande demais. Era um mapa de um avô dele que havia se dedicado à astrofísica associada a alguns aspectos dos céus que a astrologia investiga. Não era um astrólogo, mas entendia muito bem das transições das constelações.

 

Ele havia estudado o mundo nesses últimos anos e mapeou o planeta Terra segundo as constelações de muitas e muitas décadas atrás. Todo mundo achava ele um pouco pirado porque ele colocava lá as constelações Sagitário, Peixes, Aquário e as próximas no período dos tempos. E, ainda, quais partes do globo estavam sob influência de quais constelações. O neto desse cara veio até a mim para dizer: “Olha aqui vocês”.

 

De acordo com o mapa, sob a constelação de Peixes está praticamente toda a faixa da Europa que vai da Rússia até o Chile, Peru e parte da América Latina. Estados Unidos inteiro, Canadá inteiro, Alaska inteiro, estão sob a constelação de Peixes. O lema da constelação de Peixes é “eu tenho”. Não me lembro agora sob que constelação está a Europa, porque fiquei chapada ao perceber no mapa o que estava sob a Era de Aquário. Há apenas um país e uma ilha americana em Aquário. Só! Esse país é o Brasil! E o lema de Aquário é “eu sei”.

 

O Brasil está vivendo um momento muito caótico há alguns anos. Em 84 Yogi Bhajan percorreu a América Latina por inteiro. O que ele dizia do Brasil era muito interessante: “Todo mundo diz que o pulmão é a morada da alma. E por causa da Amazônia todos dizem que o Brasil é o pulmão do mundo. Vocês já consideraram essa correlação? Que esse país pode ser a alma do mundo? Vocês já pensaram que é nesse país que vamos aprender sobre o dharma?”.

 

O pessoal do Kundalini Yoga e do Sikh Dharma nos chamam de “nave mãe” porque não conseguem entender como podemos fazer tantas coisas. Pensem nisso apenas como possibilidade. Se tivermos qualquer chance de carregar os valores aquarianos pra frente e se tivermos que carregar esses valores sob qualquer circunstância, que seja na condição de carregá-los através de nossa alma, de nossa consciência e com o nosso amor. Sendo esse o ponto em que podemos respirar.

 

Não vamos deixar essa ideia nos abandonar! Essa esperança! Porque no plano cósmico o tempo é muito largo. Talvez morreremos sem ver. Mas o que podemos fazer aqui, de modo pequeno, pode ser muito transformador para o futuro. Às vezes teremos que perder coisas.

Portanto, vamos ter paz, vamos ter calma, vamos ter consciência! E não vamos entrar nesse fluxo de violência. Vamos manter nossos valores, carregar esses valores para a alma e dar um testemunho vivo desses valores. É um momento de purificação.

 

Guru Gobind Singh dizia: “Existem transições que são inevitáveis para que haja paz.” Qualquer tipo de transição inevitável é inevitável. Nós temos que manter a consciência e continuar vibrando os valores. E trabalhar demais!

 

Aluna: Será que tem como você reproduzir um pouco sobre aquele seminário que deu sobre a paz perniciosa?

 

GSK: A paz perniciosa é o que nós estamos vivendo agora. As emoções que encolhem.

 

Em toda constrição, tem que haver a força da entrega e da transcendência. Imaginem um neném na hora do nascimento. O orifício por onde ele tem que passar. Ele está com a cabeça embicada, olha para aquele orifício e pensa: “Nossa, não vai dar! Esse negócio não abre nem a porrete!”. Imaginem se vocês olham aquilo e concluem: Acabou!”.

 

É na hora em que nos entregamos que a pineal produz DMT. Pensamos “uhuu!” e, então, passamos em qualquer buraco. A coisa mais importante que aprendi com a vida, nesses anos todos, ao atravessar esses orifícios, é que todo mundo é igual ao atravessar orifícios. E aqueles que não atravessam os orifícios são também iguais. São aqueles que desistiram, a despeito daquilo em que acreditavam. O que deveria mensurar a nossa travessia são os valores. Porque no momento em que tivermos atravessado para o lado de lá serão os valores que construirão  as coisas e não o que pensamos sobre a realidade. 

 

“Eu não passo de jeito nenhum!” Isso é o que penso sobre a realidade: “Esse orifício é uma injustiça comigo! Deveria me caber!”. Isso é o que um bebê deve pensar: “O que é isso? Na hora de nascer me oferece essa abertura!? Ficou louca?!”. Mas nós atravessamos! E não importa o que pensávamos antes. Se classificamos as pessoas por “A”, “B”, “X”, “Z”, “H”, isso não vai eliminar o orifício e nem a necessidade da travessia. Então vamos atravessar e, depois, os sobreviventes, os que atravessaram, irão construir, não importa o que eles pensaram antes.

 

Já pensei que Yoga era uma coisa de bicho grilo! Não importa. Importa a força da entrega para atravessar os orifícios que são sempre pequenos. Se a mãe não mete aquele orifício daquele tamanhozinho na cabeça daquele feto, e se o bebê não atravessa o orifício, não há purificação. Ele entra com toda a noção de karma que estava carregando. Tem que purificar! Aquele bebê tem que se tornar zero, neutro. Ele faz isso através da pressão e do estresse. Já ouviram o coraçãozinho de um bebê para nascer? Porque um coração do bebê dispara daquele jeito? Já pensaram nisso? Ele está na paz do senhor? Não está! Tem mil coisas difíceis acontecendo! E ele não nega a realidade. Se ele quer atravessar, ele atravessa.

 

Vamos pular nesse rio lá no meio e ver quem está conosco. Não deixem a cabeça afundar! O Siri Guru Granth Sahib revela isso o tempo todo. O que são águas?

 

Alunas: As emoções.

 

GSK: Portanto, não deixem sua cabeça afundar! A cabeça para fora da água, olhando e vendo. Não vamos embarcar na loucura. Assim seguimos construindo a travessia pacífica. Sabendo que trabalharemos pela paz sem parar.

 

May the long time sun shine upon you...

 

[Transcrição: Tarkash Kaur]

 

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